domingo, 12 de julho de 2026

26º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará-Taguatinga de Tocantins

 

13/08/2024
Descansando em Taguatinga de Tocantins

Igreja matriz de Taguatinga-TO

  Ontem encontrei um ótimo posto de gasolina para dormir, com uma ótima estrutura para os caminhoneiros, e, claro, para os viajantes de bike, como eu. Não são muitos, mas existem. 
    O problema foi que não somente os caminhoneiros, mas todo mundo que passava por ali aproveitava a estrutura do local para tomar um banho. E estava tendo a tradicional festa da padroeira da cidade, e por isso a noite foi bem agitada por ali. Muitos visitantes e também feirantes estavam na cidade. 
    Acordei bem cansado e desci para o centro da cidade, a fim de encontrar uma boa padaria, coisa que não encontrei ontem de noite. Sou mineiro né?
    Existe uma outra cidade chamada Taguatinga, situada no distrito federal. Notei que na região existem muitas cidades com o mesmo nome em outros estados. Aliás, no distrito federal tem uma cidade chamada Planaltina, e, curiosamente, fazendo divisa existe outra cidade com o mesmo nome, só que pertencente ao estado de Goiás. Acho que muita gente que não conhece a região deve fazer confusão ao andar por ali.

                                                       O susto do bolo de chocolate

    Encontrei uma excelente padaria, que estava bem movimentada, por causa da festa da padroeira. Comi um pãozinho com manteiga e um bolo de chocolate, que pedi para pesar. Claro que pedi um generoso pedaço, mas levei um susto na hora em que a atendente colocou na balança. Onze reais! Fiquei meio sem graça, pois não teria como devolver o pedaço, que já foi cortado do bolo né? Seria muito deselegante de minha parte. ( a verdade é que se pudesse devolver iria sim fazer a devolução, mas minhas lombrigas estavam assanhadas ao ver um bolo tão bonito!)
    Mas valeu a pena o sacrifício financeiro. O bolo estava não somente bonito, estava uma delícia, bem molhadinho. Na verdade, parecia mais uma torta de chocolate do que um bolo mesmo. Aliás, resolvi sair logo da padaria, pois tinha muita coisa gostosa por lá. Tinha uns potes de doce de leite que me deram água na boca. Mas consegui resistir e ir para a pracinha central. 
Pracinha central


    Na praça central estava o palco das festividades da festa da padroeira. Aliás, a estátua dela no meio da praça é bem grande. Perguntei o nome da santa e me disseram que é Nossa Senhora D’Abadia. No palco tinha um som excelente, profissional mesmo. Tudo arrumadinho com as cases que são as caixas que guardam os equipamentos. Muitas cadeiras de plástico na praça com tendas por causa do calor. 
    Sentei em um banco e comecei a escrever o diário da viagem. Praticamente todos os dias faço o diário em um caderno, para não esquecer dos acontecimentos. Somente quando estou cansado ou passo por muitos perrengues é que deixo para o dia seguinte. 

Gaúchos em Tocantins

    Estava entretido nos meus escritos quando ouvi um drone sobrevoando a minha cabeça. Olhei para trás e vi que era um cara de uns 25 anos que o manobrava. Ele estava com uma mulher que aparentava ser sua mãe. Pensei que fosse a polícia monitorando o local, afinal, sou um forasteiro esquisito em uma bicicleta também esquisita. Não devo nada a polícia, sou um pacato cidadão aposentado que quer curtir a vida, não se importando com a opinião alheia. Se a gente se importar com a opinião dos que não têm nada o que fazer, não saímos  de casa. É o que gosto de fazer, viajar, sair por aí, sem pressa mas com documento. Não devo nada à polícia, mas, como bom paranoico que sou, imagino que todos estão me perseguindo. Falo um pouco sobre minhas paranoias durante a viagem, afinal a esquizofrenia me acompanha por onde quer que eu vá, é a mania de perseguição que me persegue. Não tem como falar para a esquizofrenia: “Olha, vou dar uma viajada, tem como você ficar aqui em Belo Horizonte por um tempo? (obs: essas letrinhas em azul são links para ver outras postagens do blog referente ao tema do qual estou narrando no diário)
os gaúchos visitando Taguatinga


    A mulher que estava no banco da praça parecendo a mãe do menino começou a conversar comigo. Perguntou se eu viajei por causa da padroeira, se eu era devoto. Disse que não ligava muito para essas coisas, mas que respeitava a crença das pessoas. Conversamos sobre viagens, ela me disse que se aposentou e que agora vai aproveitar a vida para curtir e descansar. Ela é do Rio Grande do Sul e trabalhava na propriedade da família, cultivando maçã, uva e outras coisas típicas do sul do país. 
   Ela me ofereceu chimarrão. Ela disse que era como se fosse o cafezinho dos mineiros. E que ficava com dor de cabeça se ficava algumas horas sem tomar. Ela preparou ali mesmo na praça. Me passou a sua própria cunha. Não tive receio de tomar no mesmo bico que ela. A bebida tem um gosto difícil descrever. Não é forte, não é doce e também não amargo. Talvez ela tenha feito um chimarrão fraco, sei lá. Não curti, ela me perguntou se havia gostado: 
   - “A sim, é muito bom” - respondi meio sem graça, tentando fazer cara boa. 
    E logo percebi que fiquei um pouco animado, e a gaúcha me disse que a bebida contém cafeína também, assim como o cafezinho da mineirada. 
    Depois do bate-papo com os gaúchos fui almoçar e logo depois aproveitei para descansar, afinal ciclista viajante solitário também tem que ter seu dia de folga para descansar as canelas. E o calor estava muito forte na região. Estou um pouco receoso como será a temperatura daqui pra frente, à medida que vou me aproximando de Belém. Já me disseram que no Pará é bem calorento e faz suar bastante. 

Dormindo na missa

    Estava descansando debaixo de uma árvore na pracinha central da cidade. Por volta das cinco da tarde o local mais parecia uma igreja lotada. Muita gente chegando, principalmente famílias. 
    Resolvi ver a missa, não somente por me interessar pela cultura local, mas para ver como era o som da igreja. Pelo visual o som parecia ser muito bom. Trabalhei 17 anos como operador de som, e até hoje a música é uma das minhas paixões. Mas antes fui na padaria "jantar" um potão de doce de leite que havia visto no café da manhã. 
Secretária de cultura


    Comer meio quilo de doce de leite me deu uma moleza danada, ainda mais naquele calor. Estava uma delicia, era um pouco diferente do doce de leite que se vende em supermercado, mas era muito bom. Rapidinho desceu goela abaixo. E desceu também a pressão, por conta do calor. 
   Voltei para a praça, que estava quase que lotada, Consegui achar uma cadeira bem no canto, um pouco distante do palco. E não parava de chegar gente. À medida que a praça enchia de pessoas, mas desconfortável eu ia ficando. E também me senti deslocado pois estavam todos bem vestidos, e eu, de bermuda e tênis bem usado. 
    Sou um cara bastante introvertido, e a esquizofrenia nos deixa um pouco mais fechado. Queria ser mais comunicativo, e às vezes até sou, mas isso depende de uma série de circunstâncias favoráveis à uma paranoica mente que acha inimigo em todas as pessoas. Almocei com o pessoal da igreja, eles gentilmente me ofereceram um almoço, que foi servido para as pessoas que estavam trabalhando nos preparativos da festa. Conversei com algumas pessoas e inclusive com o operador do som da igreja. Nessas viagens em dois meses acho que converso mais do que em um ano quando estou em casa. A verdade é que essas pedalanças me fazem um bem danado. 
A missa estava bem cheia

     Notei que as crianças quando viam os parente mais velhos pediam a benção. Não me lembro a última vez que vi esse costume. Estava numa moleza danada por conta do doce de leite que havia comido, e o calor parece ter abaixado ainda mais a minha pressão. Tentei encontrar em vão alguma lanchonete para comer algo salgado para dar uma animada. E, quando a missa começou, o sono bateu com força. O padre rezava a missa daquela forma mais tradicional, ritualística, falando frases repetidas. "Eeeeem nomeeee do paiiiiii, do filhoooooooo, do espiríto santooooooo. Amééééénnnn. 
      Isso aumentou ainda mais o meu sono. E nessas viagens peguei o costume de acordar cinco horas da manhã e dormir entre oito e nove horas da noite. Senti que iria dormir ali mesmo. Então, para não cair da cadeira e passar vergonha,  resolvi ir embora logo no início da celebração. Em minha mente, todos estavam reparando em mim e condenando essa minha atitude, achando uma total falta de respeito sair no meio da missa. 
Voltei para o posto de gasolina e montei a barraca no mesmo lugar da noite anterior .

Estou gostando muito de pedalar por essa região, apesar do calor. 


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