Antes de começar o post, gostaria de esclarecer novamente que não tenho aqui e em lugar nenhum de definir o que é esquizofrenia e tampouco mostrar o caminho para se livrar desse transtorno.
Não tenho a solução, apenas posto o que penso e sinto, e creio que isso ajuda de certa forma quem está lidando pela primeira vez com essa questão, seja direta(portador) ou indiretamente (familiares, namorados, patrões, etc).
Nos grupos do facebook sobre os vários transtornos mentais, pude perceber uma enorme preocupação das pessoas no fato de acharem que tenham esquizofrenia. Vou tentar exemplificar:
Uma pessoa, em um local público, "cisma" que está sendo observada. De vez em quando ela olha para os lados para tentar constatar se isso realmente corresponde à realidade ou não. Ao perceber que a galera está "pouco se lixando" para ela, continua a fazer normalmente o que estava fazendo antes. Isso é uma cisma, incomoda, é claro, mas não chega a impedir que a pessoa realize algo, como, por exemplo, ir à um shopping ou ao cinema.
Agora, se a pessoa se incomoda e muito com esse pensamento de que está sendo observada, chegando a ficar tensa, isso já pode ser uma neurose. Por exemplo, o cara está sozinho, comendo uma bela pizza quatro queijos em um shopping. O local está relativamente vazio e ele se sente confortável naquele ambiente. Mas, de repente, as mesas começam a ficam ocupadas por casais e grupos de amigos. A musculatura vai se contraindo, a respiração já não é tão tranquila e serena. A pizza já não está tão atraente e a cerveja já não está descendo redonda. O cara evita olhar para os lados e come apressadamente a pizza. Isso já é uma neurose, é um distúrbio, mas não interfere na atividade do indivíduo e nem o seu raciocínio lógico.
Agora, outra situação parecida, mas com reação um pouco diferente:
A pessoa está em um local comendo a mesma pizza deliciosa de quatro queijos e, quando chegam várias pessoas ela começa a ficar tensa, e já começa a cogitar em ir embora. Olha para os lados, e, quando vê as pessoas rindo, tem a certeza absoluta de que o alvo da gozação é ela. Acredita firmemente que estão falando dela, e sua autoestima vai lá pra baixo. Ela tem duas saídas: ou deixa a pizza no prato ou vai embora, pois não sabe quanto tempo vai aguentar aquela situação, correndo o risco de mandar alguém "tomar suco de caju". Ou seja, ela teve a certeza em sua mente de que estavam falando dela, a sua neurose acabou virando realidade e virou uma psicose. Se o indivíduo ouvir comentários a seu respeito e que não foram reais, ai a chance de ser uma esquizofrenia é alta.
Resolvi falar um pouco sobre isso, pois, devido a falta de informação e ao estigma que a esquizofrenia carrega, muitas pessoas ficam simplesmente apavoradas só de imaginarem que tem a possibilidade de serem esquizofrênicas.
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| esquiSofrenia? |
Esquizofrenia não é só "esquizofrenia"
Antes dos surtos, eu me definia como um cara muito tímido, retraído e com muitos complexos, principalmente de inferioridade. Nada muito além disso. Ia à shows e não reparava em nada além de quem estava se apresentando. Não conseguia me aproximar das garotas, mas saia de casa e me divertia com os meus amigos, principalmente os rockeiros, para demonstrar um pouco da minha rebeldia, pois desde criança já me sentia diferente dos demais.
Depois dos surtos e da esquizofrenia ter saído do estado de latência, as coisas começaram a ficar um pouco tensas pro meu lado.
Na imagem acima uma pessoa com TOC indaga se esse distúrbio possa ser um indício de esquizofrenia. Não sou psiquiatra para poder dar um diagnóstico, mas, poso dizer que as chances são mínimas, pois ela não relata os sintomas clássicos da patologia da mente dividida que são as alucinações e a mania de perseguição. Mas é sempre bom alertar os pais estarem sempre atentos aos seus filhos, pois a esquizofrenia também é comportamento e pensamento. Hoje em dia quando se vê uma criança agitada logo se fala em hiperatividade e já se fala em medicação. Creio que devem se preocupar mais quando uma criança é por demasia quieta e calada. Eu era assim quando ia na casa de desconhecidos, e isso era confundido com bom comportamento e educação.
Mas resolvi criar este post para comentar os diversos comportamentos que adquiri depois dos surtos, e creio que alguns portadores também tenham adquirido. É como se a esquizofrenia levasse a pessoa a ter outros distúrbios mentais. Esses outros distúrbios não são incapacitantes, mas incomodam e muito a vida de quem os tem.
TOC
Depois dos surtos fiquei com alguns comportamentos meio chatos. Para resumir, TOC são manias e rituais que uma pessoa acredita que são obrigadas a realizarem, caso contrário, poderá acontecer uma catástrofe ou então "as coisas" não irão dar certo.
Essa mania se estende para outros setores da minha vida. Se algo deu certo e funcionou bem, procuro fazer exatamente igual na próxima oportunidade, chegando a ser um ritual mesmo. Não é o fato de fazer algo com cuidado e dedicação, é fazer a coisa com os mesmos mínimos e insignificantes detalhes da vez anterior que deu certo. Chega a ser um sofrimento.
Hipocondria
Antes dos surtos, não tinha a mínima preocupação com as bactérias, germes, e outros microrganismos nocivos à saúde. Dá até para contar às vezes em que fui parar no hospital. Só acidente mesmo. Me lembro que fui parar na farmácia todo sangrando quando era criança. Havia desmontado o velocípede e jogado o guidão para o alto. Fiquei olhando o objeto voando e ai... caiu bem em cima da minha testa.
Cheguei a comer uma lata de brigadeiro da nestlé com o prazo de validade vencido há um ano. "Confio nas defesas naturais do meu organismo!" - era o que eu costumava dizer quando alguém me pedia para não fazer essas estrepolias alimentares. Quase não usava o merthiolate, além de arder, não me preocupava realmente com as bactérias mesmo.
Mas, depois dos surtos, tudo mudou. Penso nas bactérias quando entro no ônibus e tenho que me apoiar naqueles canos de ferro quando não acho um assento vazio. Quando entro no banheiro, quando vou ao posto de saúde, quando pego em dinheiro, imediatamente pensa nas bactérias. Chego a pensar a lavar as mãos antes e depois de urinar.
Quando estive em São Paulo fiquei chateado quando fui ao posto de saúde e não me deram a vacina para a gripe, por não estar na faixa etária indicada. Até que cheguei a insistir, mas não obtive sucesso. Já em Ipatinga-MG, por volta do ano de 2008 consegui tomar uma dose da vacina contra a gripe suína, que na época era somente administrada aos idosos e as crianças. Essa gripe estava virando uma epidemia no mundo e podia até matar. Fiquei desesperado. Mas, por sorte que conhecia uma enfermeira de um posto de saúde que entendeu a minha situação. Combinamos um horário de pouco movimento e, apesar de não gostar de agulhas, foi com o maior prazer que tomei a injeção contendo os anticorpos daquela doença.
No mesmo albergue em São Paulo, o pessoal do posto de saúde apareceu por lá certo dia para colher o material para fazer o exame de tuberculose para quem estivesse apresentando os sintomas, como tosse por mais de não sei quantas semanas. Claro que eu queria fazer o exame, apesar de não ter sintoma nenhum. Tive que insistir, mas consegui fazer o exame. Poucos abrigados quiseram fazer o exame, e isso não entrou na minha cabeça. Como pode? Um exame gratuito, a pessoa vem até ela, e o cara não quer?
A funcionária do posto de saúde disse que, depois dos exames feitos, quem tivesse tuberculose seria avisado para receber o devido tratamento.
- Mas e quem não tem, deve ser avisado também né? Tão importante saber que tem é saber que não tem a tuberculose né? - reclamei. Como é bom receber um exame e ver que está tudo em ordem...
Quando uma pessoa tosse ou espirra perto de mim, já fico tenso. Se esta pessoa não coloca a mão no rosto e faz essas coisas para baixo, tenho que me conter para não ser chato e não pedir que ela não espalhe suas bactérias pelo ambiente.
Houve uma época em que tomava antibióticos sem apresentar nenhum sintoma de que estava acontecendo algo de errado com o meu organismo. Era como se fosse uma forma de prevenção, pelo menos era isso o que se passava na minha cabeça. Era para matar uma eventual bactéria que estivesse passeando pelo meu corpo... Ainda bem que hoje em dia as farmácias hoje em dia só vendem esses medicamentos com receita médica.
Uma vez por ano, costumo fazer a cura do limão. Muito tenso, tenho que tomar cerca de 120 limões em jejum em vinte dias. No décimo dia, são dez limões, de uma vez só. Dá uma tontura nesses dias, mas, no final, sinto que isso funciona e fico mais revigorado.
Fobia social
A fobia social já praticamente faz parte da esquizofrenia, nem é preciso entrar em detalhes. Evitamos a vida social por medo de sermos julgados, comentados, difamados, etc. De pensarmos que estamos sendo observados, de termos uma crise, sei lá Não é exatamente a fobia social, o tratamento provavelmente é diferente da esquizofrenia, mas é uma fobia social:
-fobia= medo
-social= do latim, que quer dizer "associação amistosa com outros".
Às vezes não nos socializamos por tristeza mesmo, pois não é fácil receber um diagnóstico de esquizofrenia, de tão grande que é o estigma que cerca essa patologia. Deve ser algo parecido quando alguém recebe o resultado do exame de HIV. Não sei qual o procedimento para revelar esse diagnóstico para o paciente, mas sei que deve ser dado com muito cuidado e cautela. Eu mesmo, acho que pelo fato de trocar constantemente de psicólogas devido às minhas mudanças, nunca me falaram na cara que eu tinha esquizofrenia, somente fiquei sabendo mesmo quando fui fazer a minha primeira perícia e li o laudo.
Mas voltando ao assunto fobia social, creio que 80% dos portadores de esquizofrenia se isolam do mundo, tem imensa dificuldade de fazer novas amizades e até de manter as antigas. Foi o que aconteceu comigo. Hoje passo 23 horas por dia no meu quarto, não tenho amigos, nem me lembro da última namorada. Meu mundo é o meu quarto, por isso fiz tanta questão de comprar uma TV LCD, um notebook e um home theather. É o cinema em casa mesmo...
Saio para almoçar e volto apressadamente. Não há o que fazer. Às vezes dou uma passada no centro de convivência, mas nem lá me sinto à vontade. Também, às vezes, vou ao parque ecológico, me exercitar um pouco naqueles aparelhos coloridos para o pessoal da terceira idade e também curtir um pouco a natureza.
Depressão
A esquizofrenia tem o seu lado parecido com a depressão: falta de ânimo, apatia, embotamento afetivo, etc. São os chamados sintomas negativos. E eles são tão prejudiciais quanto os positivos.
Até hoje não tenho isso resolvido em minha mente. Não sei se é algum problema de saúde, ou se preciso voltar a tomar a sertralina que não me deu muitos efeitos colaterais. Aliás, deu um sim, e bem estranho. Depois que passei a tomar este medicamento comecei a achar graça na programação dominical da TV aberta. Quando me peguei dando gargalhada vendo um certo programa, resolvi por conta própria parar com a medicação, pois o "abestamento" é uma reação adversa um pouco grave.
Bem, pessoal, é isso o que tenho a dizer. A esquizofrenia é tão complexa que engloba outros transtornos mentais, sendo até confundida às vezes com a bipolaridade: meu humor oscila bastante, de um dia para outro, ou melhor, de uma hora para outra, o que me faz evitar de marcar encontros, por não saber como estarei no dia marcado. Mas não penso em remédios para controlar isso, pois, como bom hipocondríaco que sou, já fico doente só de ler a bula dos remédios...























