Já neste abrigo em BH, a seleção é natural, os mais quietinhos chegam mais cedo e ocupam os primeiros quartos, já a galera mais agitada chega um pouco mais tarde e ocupa os quartos do fundo do corredor.
Este sono bom só foi interrompido por um cara que parece não dormir. Às vezes ele passa a noite inteira andando de um lado para outro, que nem um sonâmbulo. Mas ele fica acordado e não para de falar um minuto sequer. Ele diz, entre outras coisas, que vai "desmanchar"(dar uma porrada) não sei quem. Apesar de conversar baixinho, o monólogo incomoda. De madrugada, qualquer ruído se transformo em um estrondo! Falo "xiu" para o zumbi se calar, mas ele não sossega. Provavelmente deve ter algum tipo de esquizofrenia.
"São quatro e quinze da manhã, e ainda dá para cochilar uns 45 minutos" - pensei comigo mesmo.
- Hoje vai ter jogo do Brasil, né? - pergunta um dos abrigados.
- Vai sim, e esse jogo vai mudar as nossas vidas. - respondi, ironicamente.
Não gosto de confusão e zoar as pessoas que não conheço direito, mas o cara vem me falar do "jogaço" da seleção do Dunga contra a poderosa seleção da Austrália, às quatro da manhã e em pleno horário de verão? Fala sério...
O sono me proporcionou um sonho legal. Não foi nada de extraordinário, me lembro apenas que estava conversando com duas pessoas. Mas como um sonho tão simples pode ser considerado tão legal assim?
É que nele era o antigo Julio que estava falando e não o paranoico atual. Era um cara distraído e que não reparava em nada à sua volta. Acho que todo sonho de portador de esquizofrenia é se ver livre desse transtorno. Ganhar na mega sena talvez fique em segundo plano, pois com a cabeça cheia de paranoias não dá vontade de se fazer muita coisa. Acho que até aumentaria a mania de perseguição por ter tanta grana.
Não tenho certeza se neste sonho estava dormindo profundamente ou se apenas estava pensando enquanto cochilava. A única coisa que sei é que sou um paranoico assumido e que sonha a todo momento em voltar a morar em meu canto. Mas não precisa ter medo do esquizo aqui, sou paranoico, mas sei me controlar. Muita gente ao menos desconfia que é paranoica e cometem atos de violência pensando que estão corretos. É preciso nos conhecermos melhor e mais profundamente. Surtar, no meu caso, teve esse lado positivo, pois, estudando a esquizofrenia, passei a me conhecer e a me entender melhor.
Uma das coisas que mais tenho saudades é de sair andando pela cidade sem reparar em nada e em ninguém. Como era bom ir ao cinema e prestar atenção somente no filme!
Por isso hoje o meu projeto é ter o meu cantinho, uma TV LCD e um home theather, ou seja, um pequeno cinema em casa. Pode parecer frescura, mas para quem permanece cerca de 23 horas dentro de seus aposentos, se faz necessário algo para se fazer para passar o tempo. Assistindo um bom filme consigo me desligar desse mundo maluco. Quando jogo futebol também consigo esquecer de tudo. Às vezes no mosaico também, isso quando não cismo com um dos participantes da oficina. Enfim, tudo é complicado em uma mente paranoica, até se divertir.
Muita gente procura fugir do mundo usando as drogas ou o álcool, outros procuram o isolamento. É o tal do escapismo, quem me apresentou à essa palavra foi um padre que preferiu seguir a vida religiosa. Eu fujo deste mundo em meu mundo, viajando nos filmes e seriados de TV.
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| cada um "escapa" do mundo de sua maneira |
Eficiente?
Tenho consciência de que, no momento atual não estou bem. Quero trocar o medicamento, a risperidona me dá uma fome danada, e, consequentemente um considerável prejuízo financeiro, além de aumentar os meus níveis de colesterol.Ontem(17/11) avistei, na fila de entrada do abrigo, um opala preto de quatro portas passando lentamente pela rua. Naquele instante não dei muita importância ao fato, mas, depois que avistei algumas pessoas com quem tive pequenos atritos por não respeitarem o sono alheio, as paranoias voltaram com uma intensidade parecida com a dos surtos que tive.
Comecei a pensar que os caras do opala estavam à minha procura. Havia quatro caras no opala de quatro portas. Se estavam andando devagar é por que realmente estavam procurando algo. Geralmente esse tipo de veículo é usado para facilitar a saída e entrada em uma fuga.
Essas situações provocadas pelas paranoias são estressantes, mas não me desespero. Se querem me matar realmente, então que façam isso o mais rápido possível. Creio que essa indiferença com esta vida terrena me ajuda a não ser agressivo. Digo indiferença e não vontade de me auto exterminar, o que é bem diferente. Se querem tirar a minha vida por não ser um cara "sociável", então que me eliminem, como se fosse a vida fosse um BBB, um jogo cheio de falsidades e interesses. Não sei mudar o meu jeito de ser para agradar as pessoas.
Neste abrigo não sou bem quisto. Aliás, me estranharia se fosse popular neste ambiente. Não converso muito, e isso às vezes é confundido com mitidez. Estou estressado, e às vezes digo coisas que não deveria falar. Sei que este não é o meu lugar, este abrigo deve estar parecendo com uma cadeia(nunca estive em uma, para poder fazer e comparação. Só fui em uma quando trabalhava como operador de som. Mas não se assustem, estava na penitenciária trabalhando na inauguração da mesma. Teve até salgadinho e o serviço de som foi necessário para que as autoridades falassem.
Nos primeiros surtos que passei, tive pensamentos persecutórios bem parecidos com este que tive em relação ao opala preto de quatro portas. A diferença é que naquela época todo mundo queria me matar e não somente um grupo específico de pessoas. (hoje sei que naquela oportunidade uma pessoa apenas queria tirar a minha vida, se aproveitando do meu estado mental. Sei que superdimensionei a realidade). Tinha algumas pessoas querendo que eu me desse mal, mas não era todo mundo. Então, depois de vários dias surtado e fugindo dos inimigos que estavam em minha mente, minhas energias se esgotaram. Parei de fugir das pessoas e pensava que os catadores de material reciclável queriam a todo custo me matar. Era o ano de 2003, e estava no meu segundo surto psicótico. Naquela época, certos catadores não se davam muito bem com os moradores de rua que não trabalhavam e tomavam umas cachacinhas. Certa noite avistei um catador e não fugi como sempre fazia. Permaneci deitado, imaginando que ele voltaria com seus amigos para darem o fim em mim. Não me desesperei, já estava cansado de fugir de tudo e de todos. Então, se me matassem, o sofrimento também cessaria. Considero isso um breve momento de lucidez inconsciente de uma mente paranoica e surtada.
O ambiente neste abrigo é um pouco carregado e tenso, na maioria das vezes. Já disseram que ali funcionava um IML e que o local talvez esteja povoado de espíritos que perambulam pela terra. Almas penadas, que não foram bonzinhas o suficiente para irem para o paraíso, mas que também não foram tão mauzinhas para queimarem eternamente nas chamas ardentes do inferno. Mas não creio que fatores sobrenaturais sejam a causa do ambiente pesado. São muitas pessoas vivas confinadas, cheias de problemas a causa de tudo. Então, qualquer coisinha pode ser motivo para uma briga ou discussão. Até mesmo a abstinência do álcool e das drogas causa uma certa confusão.
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| o autor deste comentário provavelmente não precisa do serviço do SUS... |
Meu caso não é extremamente grave, mas é complicado e o sofrimento não deixa de ser menor por talvez eles acharam que estou estabilizado. Mas a verdade é que não existe a medicação contra a realidade deste mundo. Cada um escolhe a maneira de escapar dessa loucura toda. Não uso drogas , prefiro ficar no meu cantinho, e literalmente viajar assistindo filmes.
Paranoias: elas não diminuíram , apenas me acostumei com elas e aprendi a ligar melhor com este mal que assola a cabeça de tanta gente.
Sincronicidade
Meu mundo e nada mais
Já que abordei o tema escapismo neste post, queria colocar a música "Além do Horizonte", do Roberto Carlos, ou então "Vamos fugir" com o grupo Skank. Mas no dia em que digitei este post e o arquivei como rascunho, resolvi baixar algumas músicas do Guilherme Arantes e do Flávio Venturinni. De tarde, já no parque, comecei a ouvi-las e quase não acreditei quando rodou "Meu mundo e nada mais", do Guilherme Arantes. Tive que ouvi-la de novo para ver se era realmente verdade o que tinha ouvido. Era coincidência demais, com o que estou vivendo e passando. Ou seria a tal sincronicidade?
Quando eu fui ferido vi tudo mudar
Das verdades que eu sabia
Só sobraram restos e eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha
Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo por um modo de esquecer
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais
Não estou bem certo se ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura
Como ser mais livre, como ser capaz
De enxergar um novo dia


























