terça-feira, 21 de março de 2023

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    Tudo começou no ano de 2012. Há dois anos atrás havia me aposentado por conta da  minha condição de portador de esquizofrenia paranoide. 
    No início tudo foi uma maravilha, ou melhor dizendo, um tremendo alívio, para tentar melhor definir o que senti quando recebi a carta do INSS.  Os tratamentos que tentei não deram certo, me fazendo passar por situações complicadas no meu emprego. Então fui parar nas ruas por não estar conseguindo mais trabalhar, mas, felizmente apareceram boas pessoas em meu caminho e que me auxiliaram muito. Se hoje estou aqui para contar estas histórias que escrevo aqui neste humilde blog é por conta dessas pessoas enviadas por Deus que apareceram na hora e nos lugares exatos. 
    Foi um alívio pois me sinto bem no meu cantinho, algo que não estava acontecendo por conta do trabalho. Saí de casa aos 17 anos e sempre morei sozinho, pois sempre precisei de um tempo comigo mesmo. Sozinho é onde vivo o meu mundo, onde respiro melhor e consigo relaxar e ficar diboa. Não digo isto em tom de amargura, numa tentativa de afirmar que o mundo e as pessoas não prestam. É apenas o meu jeito de ser, apesar de que o mundo está atualmente infestado de pessoas ruins, principalmente vestidas de cordeiro.
    Mas, dois anos após a aposentadoria o tédio se instalou na minha mente.. Minha vida basicamente se resumia em ir ao restaurante popular de Ipatinga-MG e umas duas vezes por semana ir ao centro de convivência de portadores de sofrimento mental. E também jogava um futebolzinho no parque Ipanema, um dos cartões postais da cidade. Me lembro que na primeira vez que disse alguma coisa na pelada e o pessoal riu muito, pois a maioria pensava que eu era mudo. Mas eles me respeitavam do jeito que eu era e o futebol sempre foi um bom remédio natural contra o stress, talvez provocado por uma esquizofrenia ainda latente em minha vida. 
                                                    Música: Tédio Artista: Biquini Cavadão

     Então resolvi comprar um computador em suaves prestações nas Casas Bahia. Era um CCE que saiu bem caro, daria para montar um bom PC em uma dessas lojas de informática. Mas na época não entendia nada de computadores, apenas achei o PC da CCE bunitinho e então resolvi adquirí-lo.  Até os 42 anos de idade não havia encostado um dedo em um teclado de computador. Na verdade tinha medo de teclar, pensava que uma única tecla poderia desconfigurar o equipamento todo. Me lembro que ficava admirado vendo as pessoas digitando sem olhar para o teclado em uma velocidade incrível. Pensava que elas haviam feito algum pacto com o tinhoso para fazer tal proeza. 
    Então, para também fazer um teste comigo mesmo, resolvi fazer um cursinho de informática. Era um teste muito importante,  pois na época tinha muitas dúvidas sobre a esquizofrenia. E a de que o transtorno poderia atrapalhar a capacidade de aprender coisas novas era uma delas. 
    Me lembro que, por volta dos 25 anos havia pensado em aprender a usar o computador. Mas logo desisti, por que naquela época as salas geralmente disponibilizavam um computador para duas pessoas. E depois dos vinte anos  já era um pouco, ou melhor, bastante antissocial. Atualmente sou ultra antissocial. 
    Algumas coisas negativas que acontecem em nossas vidas servem para se tirar boas lições. Depois dos surtos passei a acreditar mais em mim e não dar tanta atenção a opinião alheia. 
   Então, apesar do receio resolvi me inscrever no cursinho de informática de uma deputada na cidade. O diploma era bem reconhecido e então havia muitas pessoas na sala, a maioria jovens de no máximo 23 anos. Pensava que iria passar vergonha, não aprendendo nada e tirando notas ruins. Mas, como disse, depois dos surtos vi que posso tentar algumas coisas, as palavras não me afetam como antigamente. 
    Para a minha própria surpresa me sai bem tanto no curso de digitação como no de informática. Também no curso de digitação entrava às oito horas da manhã e só saía por volta das quatro horas da tarde, com um intervalo de duas horas para o almoço. . Me lembro que de noite ficava até enxergando estrelinhas de tão estressado que ficava. 
    No curso de informática também me saí muito bem, com ótimas notas. Respondia com convicção as perguntas feitas pela  professora e isso impressionou à todos os alunos. A verdade é que nem eu tinha certeza se as respostas estavam corretas, mas respondia com tanta convicção que até a professora ficava impressionada, olhando para o alto e perguntando se o que eu havia respondido tinha algum sentido. 
    Parei de frequentar o cursinho já no finalzinho, não tinha intenção de ganhar um diploma e sim sanar a dúvida que estava me atormentando. A esquizofrenia não havia afetado muito a minha capacidade de aprender coisas novas! Resolvi não terminar o cursinho pois não estava com a mínima vontade de ir à festa de formatura, que seria em um dos salões mais bonitos da cidade e teria muito som alto e muita gente falando sem parar. 
     Fiquei vários meses só com o PC, pois tinha que pagar as prestações e não sobrava grana para contratar um plano de internet. Ficava o dia inteirinho lendo o livro de informática do cursinho e mexendo no word escrevendo algumas coisas e no paint tentando ser um artista moderno. 
    Depois dos dozes meses de carnê consegui contratar uma internet com a incrível velocidade de 120KBPS!
Em um PC sem internet não há muito o que se fazer...

    Umas das primeiras coisas que fiz foi abrir a minha conta no Orkut e entrar para as comunidades sobre esquizofrenia e outros transtornos mentais. E também comecei a pesquisar mais sobre o transtorno, pois nas consultas nem os psicólogos e nem os psiquiatras pareciam dispostos a falar sobre o assunto. 
    Nessas comunidades pude perceber que não era a única pessoa do mundo a ter os sintomas da esquizofrenia. Isso foi de uma ajuda gigantesca para o começo de minha melhora,  pois acreditava o que eu tinha era puramente espiritual. 
    Então, com o conhecimento que fui adquirindo resolvi começar a gravar vídeos no youtube. Mas logo percebi que falar não é o meu forte, e então  resolvi fazer um blog, que foi muito bem aceito por várias pessoas. Desde criança sempre fui muito curioso, e a leitura era uma das principais atividades que tinha. Lia tudo o que aparecia na minha frente, e acredito que isso tenha ajudado um pouco a escrever textos. 


o blog também é lido em outros países, inclusive na Europa. 
    Escrever é uma excelente terapia para o meu caso. Me lembro que sempre tinha um caderno e uma caneta, para escrever coisas do meu dia a dia. Não era um diário, era apenas lembranças boas e interessantes que eu anotava para um dia me lembrar. E também usava o caderno meio como um psicólogo, botando para fora alguns sentimentos e pensamentos. No meu caso era uma terapia que funcionava bem, pois na época acreditava que psicólogo era coisa de “maluco”. 
    Acessar o blog e ler os comentários positivos me faziam um bem danado.(e ainda fazem!) E me faz sentir útil também.  Os leitores afirmavam que os meus escritos estavam ajudando e muito a entender um pouco o que é esquizofrenia. Os sites dos psiquiatras na época usavam uma linguagem um tanto o quanto científica e acadêmica, fazendo com que os familiares e portadores logo desistissem de se informar sobre o assunto. De complicado já basta o transtorno... 
    E a informação é muito importante, principalmente sobre a esquizofrenia, algo que na época ainda era cercada por muitos mitos e preconceitos. Não que não seja hoje em dia, mas antigamente a pessoa com esquizofrenia sofria muito mais com a falta de informação do público em geral.
    Por conta disso que também resolvi escrever o blog. Falar de uma maneira simples e direta sobre o que é ter um transtorno mental ainda não totalmente desvendado pela ciência. A esquizofrenia no ponto de vista do portador, com suas queixas e reclamações. Digo reclamações pois geralmente os sites dos profissionais da saúde mental meio que idolatram os antipsicóticos, afirmando que são uma maravilha e que resolvem tudo em poucos dias. 
    A verdade não é bem essa, digo isso não só baseando no meu caso, e sim nas queixas dos portadores nas comunidade do Orkut e atualmente nos grupos do facebook. Não acho que o tratamento da esquizofrenia em nosso país seja um sucesso. Acredito que ainda tem muito o que melhorar, pois no Brasil esquizofrenia é quase sinônimo de aposentadoria ou algum outro benefício social.  Uma pequena exceção consegue voltar ao mercado de trabalho, isso quando consegue começar a trabalhar. Outros conseguem alguma ocupação nas empresas ou firmas dos país ou parentes próximos. 
    Os efeitos colaterais dos medicamentos são o maior empecilho para o paciente continuar o tratamento. As pessoas em geral pensam que é teimosia ou frescura não querer tomas os remédios, mas, simplificando, tomar um antipsicótico é como ter uma dengue permanente, entre outras coisas. 
     O estigma e o preconceito que cercam a esquizofrenia também dificulta e muito o início do tratamento. Afinal, ninguém quer ser rotulado como "louco", que é o como são vistos os portadores do transtorno por muitas pessoas. 
    Onze anos se passaram, e me sinto feliz com essa nova marca. Ter mais de um milhão de visualizações em um blog em um país onde a leitura não é muito incentivada é uma proeza sim. E ainda conta o fato de sempre estar criticando os antipsicóticos e, consequentemente, não ter o apoio de pessoas influentes. Mas sempre serei assim, afinal a liberdade não tem preço. 
     Não vou desistir e continuarei por aqui falando sobre o assunto e reivindicando melhores tratamentos para a esquizofrenia e outros transtornos mentais. 
    Os profissionais da saúde mental dizem que os antipsicóticos atuais são melhores do que o tratamento da década de 40 e 50. Sim, é verdade, qualquer coisa é melhor do que uma lobotomia, um eletrochoque ou um manicômio lotado sem a mínima condição de higiene e com um mínimo de dignidade. 

  Sei que essas minhas queixas podem desagradar muitas pessoas, principalmente os profissionais da saúde mental. Não sou totalmente contra a psiquiatria, só acho que em nosso país pegam pesado no uso das medicações, não é á toa que somos campeões mundiais no uso do rivotril e outros medicamentos. "Os  medicamentos lideraram a lista de principais agentes tóxicos que causaram intoxicações em seres humanos com 30,5% das ocorrências. Em seguida, vem a intoxicação por animais peçonhentos, sobretudo escorpiões (19,9%) e produtos sanitários de uso doméstico (11 %)" 
    Sou contra os maus profissionais, que pensam somente no lucro acima de tudo, sou contra aqueles que tem vínculos com a indústria farmacêutica e que prescrevem seus medicamentos mesmo que não sejam tão necessários. Tratamento da esquizofrenia não é somente medicação, terapia ajuda e muito. E muitas coisas podem ser terapia. 
     Terapia é tudo o que pode nos ajudar a melhorar, é fazermos o que gostamos, de estarmos em lugares em que nos sentimos bem. Terapia é estar em um bom ambiente e estar longe de pessoas negativas e que querem o nosso mal. Enfim, respirar bons ares e ter bons pensamentos. 

Agradecimentos

    Agradeço nesta postagem aos bons profissionais que encontrei nas consultas e espero que continuem assim, mesmo que não estejam obtendo tantos lucros se estivessem de mãos dadas com a indústria farmacêutica. 
     Aqui vai o meu principal agradecimento: à todos os leitores do blog! Me tornei e me senti uma pessoa melhor ao ler seus comentários e agradecimentos. Tudo nesta vida tem um lado positivo se soubermos entender certas coisas. No meu caso em particular surtar ajudou a me entender melhor como pessoa. Durante a minha vida inúmeros sinais apareceram querendo dizer que havia algo de diferente em mim, mais em nunca percebi ou parei para pensar nisso. Até que chegava a pensar um pouco, mas não conseguia chegar em nenhuma conclusão. 
    Mas não reclamo, durante os surtos conheci muita gente boa, que, como já disse inúmeras vezes, me salvaram literalmente. Atualmente, no blog e no meu canal no youtube tento de alguma maneira retribuir, ajudando as pessoas que estão passando hoje  o que passei nos primeiros surtos. 
     Não falo muito sobre certos assuntos pois o mundo está cheio de pessoas que se aproveitam de certas situações para obterem lucro pessoal. São efusivas e sabem influenciar o próximo.. Mas o criador não precisa de câmeras e nem de microfones. E é à Ele que também vai o meu agradecimento final. 
  



terça-feira, 14 de março de 2023

O jejum forçado de diazepan

 Abstinência....

    Como vocês puderam perceber na postagem anterrior, está faltando o ansiolítico diazepan nos postos de saúde de Belo Horizonte. O motivo não tenho certeza qual é, pois os funcionários não costumam responder nossas indagações e depois reclamam que a gente fica pesquisando esses assuntos na web... 
    Mas, fazendo uma busca na internet descobri que a China tem dificultado o trabalho da indústria farmacêutica, visto que esse setor da economia tem poluído e muito o meio ambiente daquele país. E o Brasil importa matéria prima para a produção de alguns medicamentos justamente dos inventores da pólvora. 
    Sou um pacato cidadão, não gosto de confusão, mas confesso que em algumas situações sou um pouco teimoso. E essa questão de ter que comprar uma droga que não pedi para ficar viciado não entra em minha cabeça em hipótese alguma. 
    Vou explicar melhor: na minha primeira consulta com o psiquiatra, relatei os meus surtos e também que estava tendo dificuldades para dormir. O cara nem olhou na minha cara e já foi logo preenchendo o formulário da receita com o ansiolítico lorazepan, da família dos benzodiazepínicos. Na minha cabeça, esses medicamentos eram meio que milagrosos e nos fariam dormir o sono dos anjos, mesmo que o mundo estivesse caindo sobre nossas cabeças. 
     Naquela época estava dormindo nas ruas, ou melhor, tentando dormir, pois é um pouco perigoso um morador de rua ficar a madrugada toda exposto em uma calçada. Estava nas ruas por causa das vozes ameaçadoras, que diziam que iriam me pegar, me matar, etc.. A solução que encontrei foi fugir, pedindo demissão do emprego e mudando de cidade. Mas era uma tentativa de fuga de algo que estava em mim mesmo e não no mundo externo. Então, na minha modesta opinião o psiquiatra deveria pelo menos ter perguntando o motivo de não estar caindo nos braços de Morfeu. Era um motivo real, não era ansiedade sem um motivo aparente, os ansiolíticos não resolvem esses problemas reais do dia a dia. 
    Na época não tinha acesso à internet e na farmácia não me passaram a bula do medicamento, pois tenho a mania de ler tudo o que passa na minha frente. Não tinha a mínima ideia do que esses benzodiazepínicos podiam fazer em meu organismo. Não sabia que eles viciavam e que em pouco tempo iriam parar de fazer efeito, obrigando-me a voltar ao médico para aumentar a dosagem ou buscar um medicamento mais forte. Também não sabia também que eles detonavam nossa memória e que também poderiam aumentar as chances de ter alzheimer. 
    A indústria farmacêutica é muito poderosa e as propagandas dos ansiolíticos me fascinavam. Geralmente era uma pessoa dormindo tranquilamente em uma cama. A verdade é que para um insone crônico não é necessário ter muita criatividade para se fazer um comercial de algo que promete acabar com o que está acabando com a gente: a falta de um bom sono reparador e que nos faça acordar bem dispostos e de bom humor. 
    No meu caso geralmente tenho que descansar das noites mal dormidas, então o período matinal não é o melhor para se programar algo para fazer. Geralmente fico deitado, ouvindo música ou fazendo algo que não exija tanto esforço físico. Fico bem de tarde e de noite, talvez seja também o meu relógio biológico que me faça estar bem nesses horários. 
as propagandas dos ansiolíticos podem atrair os menos avisados

                                                Sou um dependente químico

    Hoje me considero um dependente químico, e não tenho vergonha disso. Crise de abstinência são alterações em nosso organismo que resultam em mudanças de comportamento e alucinações e outros sintomas decorrentes da falta de uma substância. 
    Comecei a usar essa droga de droga chamada diazepan no ano de 2002. Usava 10mg e, por volta do ano de 2006 tive que dobrar a dosagem pois não estava mais sentindo nenhum efeito ao me deitar. 
    Mas em dois meses os 20mg pararam de fazer o efeito inicial. Na época já tinha acesso à internet, pois estava no auxílio doença e havia comprado um computador CCE em suaves prestações nas Casas Bahia. 
    Então já sabia que a causa da minha memória não estar muito boa era o pan nosso de cada dia e não os meus 40 e poucos anos. E sentia que se continuasse naquele ritmo em breve iria estar tomando uns 50mg. Era o momento de fazer o desmame por conta própria. 
    Foi uma longa e difícil jornada, com dores de cabeça, palpitações no coração, e, claro, um pouco de nervosismo e irritação sem causa aparente. Mas, como muito esforço e uma redução lenta e gradual, hoje estou tomando apenas 4 comprimidos por mês! Infelizmente não consegui parar por completo, parece que o meu organismo fica pedindo a droga. Mas considero essa boa redução uma grande vitória, pois teve época que chegava a tomar 4 comprimidos durante o dia, não conseguia usar  os antipsicóticos por causa do trabalho e então usava o diazepan como um SOS. 

     Como não pedi para ser dependente de ansiolíticos, não acho justo ter que ficar comprando esses remédios. Infelizmente alguns profissionais da saúde mental agem meio como traficantes, pois ganham amostras grátis dos laboratórios e oferecem aos seus pacientes. E, quando já estão viciados, cessam o fornecimento e pedem para que eles comprem os medicamentos. E, acreditem, alguns psiquiatras ganham comissão para receitar medicamentos de certos laboratórios. Sei disso por que já vi os engravatados representantes desses laboratórios nas unidades de saúde que fazem atendimento de psiquiatria. 
    Se tiverem dúvidas, assistam ao filme Amor e outras drogas, uma comédia romântica que é meio baseada em fatos reais, pois foi ela foi inspirada num livro de um ex propagandista de um laboratório farmacêutico. 

A teimosia

Se você assistiu Spectroman você tem mais de 50...

     Por volta do ano de 2003 faltou diazepan na cidade onde morava. A atendente da farmácia falava que na "semana que vem" o medicamento iria chegar. E foi assim por quatro semanas seguidas.     Como resultado dessa falta do ansiolítico no meu organismo tive um surto violentíssimo. Bem, o surto foi violento, mas eu não ficava agressivo, minha reação era apenas fugir das vozes e dos meus pensamentos persecutórios. 
    Me lembro que certa madrugada ouvi uma voz de um homem falando em uma língua estranha, parecendo alemão. Logo imaginei que a voz vinha da igreja evangélica que se situava uns 100 metros da firma onde eu morava. Me causou espanto que a voz não parava um minuto sequer, e comecei a rir imaginado que o dono daquela voz iria ter um ataque do coração, pois ninguém conseguiria falar por tanto tempo seguidamente sem parar para respirar. 
    Depois de muitos anos, analisando a situação, cheguei á conclusão de que se tratava de uma alucinação. Afinal a igreja nunca havia ligado o som de madrugada, os cultos terminavam por volta das nove horas, no máximo. E, se tivessem usado o equipamento de som os moradores da rua teriam comentado e reclamado da noite mal dormida. 
     Tive uma outra alucinação auditiva bem estranha. Me lembro bem, era madrugada de sábado para domingo, umas duas horas, mais ou menos. Ainda estava acordado e era possível escutar a música que vinha de um salão de forró, que ficava ao lado da igreja. A música rolava solta até que resolveram dar uma parada, e, não sei por que, nesse instante comecei a ouvir uma voz tenebrosa, parecida com a do Darth Vader. E geralmente durante os surtos não questionamos se aquilo é verdadeiro ou não, as vozes soam muito reais em nossas mentes. Então imaginei que um enorme monstro gosmento estava subindo no palco do forró, e por esse motivo a música havia parado. Hoje sei que foi uma alucinação, pois no dia seguinte não ouvi nenhum comentário sobre monstros gosmentos invadindo show de forró. 
    E também sei que monstros gosmentos só existem em filmes de terror, existia no espectroman e também no desenho das Garotas Superpoderosas. Sim, eu cheguei a ver esse desenho e adorava aquela que era a mal humorada, a que usava roupa verde. Acho que era a Docinho. 
    Cheguei a ter umas duas alucinações visuais naquele surto. A maioria das alucinações que tive e ainda tenho são auditivas. Às vezes parece que tenho alucinação olfativa, pois sinto um cheiro estranho, parecendo de algum produto químico, mas não imagino qual seja. Enfim, não sei se é verdade ou alucinação. Mas uma das alucinações visuais que tive era a de um machado vindo em minha direção. Me lembro que naquele momento até me abaixei para desviar da rota daquela ferramenta de corte de madeira. 
    Outra alucinação visual que tive naquele surto foi a da cadela da proprietária da firma. Ela apareceu morta no jardim, com as patas para cima, sem respirar e um pouco inchada. Cheguei bem perto dela para ver se respirava. E, como não se mexia corri para o meu quarto. Mas, logo depois a vi andando normalmente pelo galpão. Gostava muito dela e foi aquele ser que me fez companhia naqueles momentos tão difíceis da minha vida. 
     Tive também vários delírios, um dos mais estranhos que tive naquela época era a de que o mundo estava acabando, principalmente quando via poucas pessoas nas ruas. Imaginava que elas haviam fugido para um outro lugar, em uma tentativa de escapar de uma catástrofe ou coisa parecida. Cismava de que um planeta ou meteoro gigante iria colidir com a terra. 

Como é a minha abstinência atual

     Como decidi por um tempo não comprar algo para alimentar o vício de algo que não pedi para viciar, fiquei certa de quatro semanas sem usar o diazepan. Fiquei muito irritado e meus colegas fominhas do futebol do centro de convivência sofreram um pouco comigo. Uma das coisas que não gosto na pelada são aqueles caras fominhas que não tocam a bola e só pensam em fazer gol para se gabarem no final. 
    Não tive paciência com um monte de gente. Mas teve um lado legal, fiquei rindo mais, um pouquinho mais agitado também. Minhas emoções ficaram mais afloradas, tanto as positivas como as negativas. E minha libido aumentou bastante também, algo que não tem tanta utilidade hoje em dia, pois nem confusão estou conseguindo arrumar. 
    Com essa forçada abstinência a minha mania de perseguição, que já é alta, pulou para níveis alarmantes. À todo instante ficava imaginando que estavam tramando algo contra a minha pessoa.
A minha mania de perseguição atual também é virtual, ou seja, está pior do que no início, pois penso que estão hackeando o meu notebook e que sabem tudo o que acesso e digito.  Pensei em sair por aí viajando de bike, mas imaginava que nas estradas iriam me perseguir também. 
   Enfim, a mania de perseguição é uma das coisas mais incapacitantes que já conheci. Claro que tem os níveis desse delírio. Pode ser apenas uma cisma, uma neurose e, se não for tratada pode sim virar uma psicose. É como qualquer outra doença, quanto mais cedo diagnosticada e tratada, maiores são as chances de cura. 
   Além de tudo isso, sem o diazepan por muito tempo fico sem conseguir me relaxar. A musculatura fica tensa e acordo muito cansado. Meu cérebro fica "tagarela", como se estivesse várias pessoas conversando na minha cabeça. 
    O jeito então foi comprar uma caixa com 30 comprimidos. Na primeira noite já senti um enorme alívio. Dormi relativamente bem e relaxei meus músculos. Fiquei menos ansioso e calmo, com os pensamentos mais ou menos em ordem. Como seria bom se os medicamentos para combater os transtornos mentais não tivessem efeitos colaterais!
    Muitas pessoas não me entendem, não sou contra os medicamentos e nem contra quem os receita. Sei que tem muito profissional da saúde mental bem intencionado. A minha luta e reinvindicação é para que descubram medicamentos que tenham eficácia mas com nenhum ou pelo menos poucos efeitos colaterais e reações adversas. 
    Queria também que os médicos tivessem critérios para liberar uma receita desses medicamentos que alteram o nosso cérebro. Deveriam fazer perguntas e dar conselhos. Medicamentos só em último caso, o Brasil é campeão mundial no uso do rivotril e outros ansiolíticos e antidepressivos
Muitas pessoas imaginam que antidepressivos possam fazer milagres, que podem nos deixar felizes e contentes mesmo com uma situação não muito boa. Já vi uma mulher na farmácia de um posto de saúde comemorando uma receita da fluoxetina mesmo sem estar com depressão. Esse medicamentos geralmente tem como efeito colateral a perda de peso... 
     Uma amiga minha gostava de usar ritalina, ela dizia que a deixava animada e que tinha um efeito parecido com o da cocaína. Enfim, existem diversas ocasiões em que uma pessoa solicita ao médico determinado medicamento sem realmente estar precisando dele. . 

Além do diazepan


                                                  Além do diazepan, o que me acalma?

    Costumo dizer que cada pessoa tem a sua válvula de escape para a ansiedade: alguns usam o álcool, outros a maconha e outros drogas mais pesadas. E não somente isso, existem várias outras coisas que são usadas para o alívio desse mal que assola a humanidade dos tempos atuais. E algumas dessas coisas são saudáveis, como os esportes, que liberam a endorfina e nos relaxam. 
    No meu caso em particular não uso drogas, mas vou para um caminho que também não é muito saudável: me empanturrar de comida, preferencialmente doces, bolos, tortas, chocolate, etc... 
   Além de fazer mal à minha saúde tem também o prejuízo financeiro, boa parte do meu salário vai para a padaria, pois já gosto de doces naturalmente. Quando fico ansioso a situação fica crítica e chego a comer uma caixa de bombons em uns dez minutos. Esse é um dos vários motivos pelos quais não uso os antipsicóticos, pois eles aumentam e muito o nosso apetite e então meu estômago parece não ter fundo. Então não seria boa parte do meu salário e sim ele todo que iria para a padaria....
    O futebol ajuda e muito a tirar um pouco a minha ansiedade e o meu stress. Correr, gritar, extravasar é sempre bom. Mas hoje em dia não posso e nem consigo jogar bola todos os dias. Comecei então a pedalar e está sendo muito bom. É um esporte que recomendo à todos. 
    Esse bem estar produzido pelos alimentos, pelas atividades físicas, às vezes causado por alguns medicamentos me fazem pensar se a felicidade é química.
       Quando como chocolates me sinto tão bem e disposto que nada me importa, esqueço de todos os problemas e fico sorridente. Mas quando não como fico parecendo o personagem principal da série After life. Depois do futebol geralmente como chocolates ou tomo um sorvete de chocolate. Tudo fica azul, até canto (para a tristeza dos meus vizinhos). Baixo músicas novas de músicos que não conhecia e as acho muito legais e interessantes. No dia seguinte, sem a endorfina e outras inas mais causadas pelo futebol deleto um monte de canções que me pergunto como fui perder o meu tempo de baixá-las. 
Enfim tudo fica meio cinza, não que eu saia descontando o meu mau humor em todas as pessoas, apenas evito o contato com a maioria dos seres humanos. Seria mais estado de ânimo do que mau humor. Nada tem graça e fico me perguntando o motivo das pessoas estarem rindo. 
       Quando estava morando nas ruas por causa dos surtos por um certo período morei em um albergue para pessoas em situação de rua. Precisava de um endereço fixo para tirar novamente todos os meus documentos. Uma vez na entrada vi um senhor que morava no abrigo e que em um chuvoso dia na fila para entrar no abrigo estava todo sorridente. Ele vendia picolés e provavelmente não teve um bom lucro naquele dia. Mas seu sorriso me deixou intrigado: como uma pessoa que mora em um abrigo conseguia sorrir em um dia de chuva enquanto outras pessoas com bom poder aquisitivo são mau humoradas?
    Afinal, o que é a felicidade? Está em algum lugar, em algo, ou em dentro de nós? Ou é um conjunto de coisas?
    


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domingo, 12 de fevereiro de 2023

Qual o melhor plano de saúde?

 Faltam medicamentos no Brasil 


    Semana passada fui no posto de saúde buscar o meu diazepan, que atualmente tomo 4 comprimidos por mês. 
    Antes o diazepan era o meu "o pan nosso de cada dia", ou melhor de cada noite. Ou melhor, era o meu "pan" de todas as horas, pois quando sentia que podia surtar tomava um comprimido onde quer que eu estivesse, até no meio da rua mesmo, pois sempre andava com a cartela no bolso. Comecei com cinco miligramas, depois passei para 10mg e depois para 20mg. 
    Com o passar do tempo os 20mg não fizeram mais efeito mas não pedi para aumentar a dosagem e comecei a refletir. Logo logo iria estar tomando uns 100mg por noite se continuasse naquele ritmo.
E todos sabe o mal que esses ansiolíticos podem fazer, principalmente na questão da memória e também contribuir para o aparecimento do alzheimer
    Fiquei intrigado sobre o motivo de estar faltando um medicamento tão barato nas farmácias do Brasil. Comecei a pesquisar no google descobri que  um dos responsáveis por isso é a China, que barrou muitas indústrias por questões ambientais (as fábricas poluem muitos os rios).
    Então, por conta disso a indústria farmacêutica nacional viu aumentar e muito a importação de insumos para a fabricação de medicamentos, resultando na falta destes nas prateleiras das drogarias e postos de saúde do nosso país. 
    Por sorte consegui fazer o desmame e hoje sou quase que livre dessa droga de droga, que estava atrapalhando e muito a minha memória. Como relatei, tomo apenas 4 comprimidos por mês, por conta da abstinência adquirida ao longo de quase 15 anos de uso contínuo. 
   Foi um processo difícil e lento, com muita ansiedade, dores de cabeça, palpitação no coração e outros sintomas da abstinência de drogas. 
   Por volta dos 32 anos não conseguia sair de casa sem uma cartela do ansiolítico no bolso. Não estou livre da esquizofrenia, é uma luta diária, mas, pelo que passei e como fiquei no início da doença, hoje posso dizer que sou um vencedor. 
a atividade física melhora também a saúde mental
    Invisto muito em chás, atividade física (bike, futebol, etc), redução de café e alimentos estimulantes para não ficar dependente de algo que pode fazer mais mal do que bem. 
    Todos deveriam saber que na bula do diazepan está escrito que é para ser tomado por um período, de, no máximo 4 semanas. 
    Mas nosso país é o campeão mundial no uso desse medicamento,, talvez por falta de condições da rede pública (ou má vontade mesmo), pois, em raríssimas exceções os médicos nos informam sobre os perigos no uso prolongado desses medicamentos.
    Enfim, o melhor plano de saúde é não adoecer. Pode parecer um gasto a mais essa procura por uma melhor qualidade de vida,  mas, no final teremos menos despesas com remédios e idas aos médicos. 

domingo, 12 de dezembro de 2021

A difícil arte da diversão para um esquizofrênico...

                                                              Um cara de sorte....

   Há alguns anos atrás, estava de bobeira, como sempre, viajando pelas ondas da internet, sempre deixando a aba do facebook aberta. Rolando a página me deparo com uma postagem do Zeca Baleiro dizendo que  estaria aqui em "Beuzonte" para um grande show em homenagem ao grande compositor Vander Lee, que, infelizmente, não está mais entre nós. Quem acompanha o blog sabe o quanto admiro esses dois compositores. 
   Despretensiosamente escrevo na timeline do Zeca que gostaria de ganhar um ingresso para o show, pois a grana estava por demais curta. E continuei a minha navegação na internet, sem esperanças de que o meu pedido fosse visto. Na verdade era mais uma brincadeira do que um pedido. Mas não é que, ao  ver as notificações vejo que alguém havia respondido o meu comentário? Ao olhar a resposta, a surpresa: uma pessoa estava me oferendo um ingresso, e combinamos então de nos encontrar na portaria do local do show uma hora antes do evento. 
    E agora? pensei... Sou um grande fóbico social, não vou à um show desde 2004, quando desisti definitivamente de trabalhar. 
     Não vou conseguir ir à este show, mas também seria uma enorme desfeita recusar a generosidade daquela mulher. Então, me dei mais esta missão: ir ao show do Zeca Baleiro, no palácio das artes provavelmente lotado, e sem um miligrama de diazepan na cachola...
    Não gosto de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, e sei que vou conseguir vencer essa minha dependência química do "pan nosso de cada dia"...


    Dito e feito: domingo saí de tarde para almoçar e fiquei de bobeira até as sete horas da noite, horário combinado para pegar o ingresso com a Fabiana (nome fictício), em frente ao Palácio das Artes. Minha mania de perseguição é tão grande que tenho a certeza absoluta que as pessoas que querem me prejudicar também irão querer prejudicar a quem me dá uma ajuda, por isso não coloquei o nome dessa generosa pessoa que me cedeu o bilhete. 
    No horário marcado ela apareceu, vestida conforme combinado no facebook. E a foto do perfil dela é atual, então não foi muito difícil reconhecê-la. A cumprimentei e, sorridente me  deu o ingresso que, para minha surpresa era da primeira fila!!! Fiquei sem entender nada, e muito menos consegui encontrar palavras para agradecer aquele gesto. Uma pessoa logo apareceu perguntando se eu queria vender o ingresso, o que recusei, é claro. Dinheiro no mundo nenhum valeria a chance de ver um show com três grandes compositores homenageando um outro grande compositor que é o Vander Lee. Apesar da grana estar curta nem cogitei em vender aquele ingresso, que deveria valer uma boa grana, mas não sou e nem tenho a pretensão de ser um cambista, ainda mais com um ingresso que me foi dado... 
   O motivo desse show é um pouco triste. O Vander Lee gravou um DVD no meio do ano passado, no Rio de Janeiro. Era em comemoração dos seus vinte anos de carreira, mas,  um mês e meio depois veio a falecer, para a enorme tristeza de seus muitos fãs no Brasil inteiro. Então o projeto  não foi finalizado e o Zeca Baleiro e o Maurício Tizumba resolveram fazer esta homenagem para concluir a edição deste DVD. 
ingresso para a primeira fila!!!
    Já tive algumas chances de ir ao show do Zeca Baleiro, até quando morava em Ipatinga, mas minhas paranoias e pensamentos persecutórios falaram mais alto naqueles dias e então resolvi ficar em casa mesmo, como sempre faço todas as noites. Percebi que a situação era grave mesmo quando o meu time do coração foi jogar em Ipatinga e eu não fui ao estádio, que ficava a menos de 1km de onde morava... 
     Entrei no palácio das artes e nem sabia o que fazer com aquele papel impresso. Fui na bilheteria pensando que teria que trocar por um ticket, mas era só apresentar na entrada do teatro que o funcionário com o leitor de código de barras iria verificar a autenticidade do ingresso. Antes havia comprado uma pipoca, pois sempre procuro algo para comer quando estou ansioso. 
   Fui para o meu lugar meia hora antes do show. Obviamente estava tenso e um pouco travado.   Coloquei então o meu disfarce de "gente normal" que acredito ser bem convincente, pois a maioria das pessoas quando me conhecem não dizem que tenho algum tipo de transtorno mental... Mas acho que elas enlouqueceriam se em suas mentes se passasse por alguns segundos o que sempre se passa em minha cabeçona...
    Fiquei no meu assento, e feliz por ter encontrado um amigo que não via há uns vinte e cinco anos atrás: o operador de som do show era simplesmente um cara que começou a trabalhar juntamente comigo em uma empresa de sonorização aqui em Belo Horizonte. Como ainda estávamos aprendendo o ofício, passamos momentos difíceis montando e desmontando  equipamentos de som em algumas festas e shows aqui em BH. Mas hoje ele é um grande operador de som e fiquei feliz em saber que está bem e sendo muito requisitado pelas bandas aqui de Minas Gerais. 
    Aos poucos o teatro foi se enchendo até ficar completamente lotado. Afinal, são três grandes artistas reunidos para homenagear um outro grande artista que se foi: o Vander Lee.
    Como me havia prometido, nem levei uma cartela de diazepan no bolso. Era um risco e tanto, mas gosto desse tipo de desafio. Eu, que em 2002 estava nas ruas de Belo Horizonte, com 25kg a menos, comendo lixo e pensando que o mundo iria acabar, agora estou no palácio das artes assistindo como um ser humano qualquer um show de seu cantor preferido. 
    Eu que, por volta de 2003 não conseguia sair de casa em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais sem uma cartela de diazepan no bolso. Certa vez quando esqueci e estava longe de casa, corri até a uma padaria e me empanturrei de torta de chocolate até quase não conseguir andar direito. A  "emapanturração", principalmente com doces, servia para me acalmar, mas minha barriga também estava a ponto de estourar. Chocolate e as massas também me dão uma acalmada...
   Mas, voltando ao show,  a campainha soa pela primeira vez, para avisar que o show iria começar em dez minutos. O público não fala muito e a acústica do teatro é muito boa, o que não faz aquele burburinho de vozes ficar quase que insuportável para mim.
    Estou relativamente tranquilo e feliz comigo mesmo. Minha musculatura estava tensa, mas confiante de que não iria sair correndo para fora do teatro durante o show. 
    E a campainha do teatro soou pela segunda vez anunciando o início da apresentação. Silêncio total na plateia e o show se inicia com o Maurício Tizumba, que também é humorista, fazer a primeira parte do espetáculo. O som está alto, mas muito bom. Como disse, ganhei o ingresso para a primeira fila, e estava de frente para uma caixa de som. Mas o som mesmo alto não estava ferindo os ouvidos, devido a qualidade dos equipamentos de hoje em dia. E também graças as mãos e ouvidos do meu amigo operador de som. 
Chico Cesar fez um grande show... 

     O show tem um leve clima nostálgico, mas até que o Maurício Tizumba com o seu humor faz a plateia rir por diversas vezes. Saiu muito aplaudido e logo depois entrou o Zeca Baleiro. O som ficou melhor ainda, pois a voz dele é mais para o grave e não tanto aguda. Ele falou pouco, creio que pelo motivo da homenagem ser o DVD das músicas do Vander Lee. Mas foi muito aplaudido também. Timidamente tiro o meu velho celular para tirar umas fotos, os vizinhos de acento estão filmando com celulares muito melhores e mais modernos. Até que tinha um celular razoável, que acabei vendendo, pois a situação aqui em Belo Horizonte está complicada e estão matando quem reage aos assaltos. Agora posso andar tranquilo pelas ruas com o meu novo celular antigo, e, para completar, uso um papel de parede que simula uma tela quebrada... 
  Depois que perdi a timidez do meu velho celular tiro mais fotos e até gravo um trechinho de uma música. O áudio saiu bem distorcido, pois como já relatei, estava bem em frente de uma caixa de som. Afinal, não vou à um show há bastante tempo e esqueci que tinha que diminuir o volume do microfone. Mas logo coloco o celular no bolso, não consigo curtir um show e filmá-lo ao mesmo tempo... Temos que sentir o som, os instrumentos... 
   Já no meio do show estou um pouco menos tenso e até bato palmas para acompanhar as músicas. Mas o desconforto ainda é muito grande, não adiantando dizer em pensamento para mim que as pessoas foram ao teatro para ver o show e não ficar me observando. E ainda tem as câmeras que estão gravando o show, o que aumenta e muito a sensação de estar sendo observado.  Rapidamente uma timeline se passa em minha mente e relembro dos shows que via antes dos surtos... Ficava completamente distraído, não reparando em nada à minha volta, somente os olhos voltados no palco e os ouvidos nos instrumentos... Meus olhos ficam um pouco marejados ao lembrar desses bons tempos e também por causa da lembrança e das homenagens ao Vander Lee, que parecia ser um cara tipicamente mineiro, pelo seu jeito de falar nas entrevistas que eu vi.
    Incrível como a plateia interage com os músicos, não sabia que  o Vander Lee tinha tantos admiradores, o que me faz sentir melhor, pois é bom ter um gosto musical diferente da maioria, mas também nem tanto diferente, para não me sentir um grande extraterestre.

    O show vai chegando ao fim, e para deixar meus olhos mais marejados ainda, a última música quem canta é o próprio Vander Lee. Não, ele não ressuscitou, é que o telão do teatro  foi abaixado e rodaram um vídeo com ele cantando, e a banda no palco acompanhou a música ao vivo, ou seja, foi uma música ao vivo com o falecido cantando. Bem,  acho que expliquei bem a situação...
   Muitas e demoradas palmas no final.  Olho ao redor e vejo que há um misto de emoções na plateia. Deu para notar algumas com os olhos marejados, e outras sorridentes, por causa do grande show que tinham acabado de ver. No meu caso estava também com essa mistura de sentimentos. Triste por saber que não existirão novas composições do Vander Lee, e alegre e aliviado por ter conseguido vencer mais este pequeno desafio. Espero calmamente sentado no meu banco a maior parte da plateia sair para poder ir embora. Estou um pouco mais leve, pode parecer pouca coisa, mas não é para quem estava praticamente morto por volta do ano de 2003 e que desde então não conseguia ir a um show. 
   Antes de sair do teatro, vou a mesa de som e cumprimento o meu amigo operador de som pela qualidade do áudio. Técnico de som é igual juiz de futebol, é muito importante mas não pode aparecer para a plateia. Se aparece é por que algo não está acontecendo do jeito que deveria estar acontecendo. 
   Vou para casa a pé. Foram quatro quilômetros que andei sem maiores problemas, parecia que estava 10kg mais leve. Analisei o meu comportamento durante o show e acho que o meu disfarce de gente normal foi realizado com sucesso, foi difícil esconder o meu entusiasmo, pois parecia uma criança quando vai à praia pela primeira vez ou então um cachorrinho quando ouve o barulho da corrente quando seu dono a pega para passearem juntos...
    Infelizmente sei que nem sempre vou ter esse tipo de diversão, acredito que mais dia menos dia a mania de perseguição e algumas vozes irão tirar o prazer de uma saída de casa. Mas não vou desistir, a vida é feita de desafios. E ultimamente tenho voltado a gostar dos desafios, do bom combate e da boa luta... Quem sabe um dia se o Yanni voltar ao Brasil eu consiga ver um show desse cara. Quando estive em São Paulo, no ano de 2014,  cheguei a ir ao ginásio do Ibirapuera, mas resolvi não comprar o ingresso, pois não saberia como iria me sentir no meio de tantas pessoas. 
    O "show homenagem" foi demais, recomendo a todos que assistam quando os caras estiverem em sua cidade. Me considero um sortudo, apesar de tudo. Afinal ganhei um ingresso para assistir um dos meus cantores prediletos e ainda na primeira fila... 
   A luta continua, um passo de cada vez e acredito que ainda terei mais desafios pela frente.
   Abraços à todos e até a próxima postagem.



domingo, 24 de outubro de 2021

Ciclismo e saúde mental

 O ciclismo ajuda no tratamento dos transtornos mentais?


Como o ciclismo apareceu em minha vida

 Quem acompanha o blog e o meu canal no youtube sabe que há algum tempo atrás passei a adotar a bicicleta como o meu meio de transporte principal. E não é somente isso, a magrela, é, além de tudo, uma ótima  terapia que me ajuda tanto no aspecto físico como mental. 
    Além da óbvia economia de dinheiro, com a bike ganhei mais saúde, disposição, um pouquinho mais de músculos e um pouquinho menos de gordura. Não sou obcecado em ter um corpo perfeito, apenas o necessário para me locomover por aí sem tanto esforço. Dizem que saco vazio não para em pé, mas também saco muito cheio também fica difícil de sair do lugar. Por isso que tenho um pouco de obsessão em manter o mesmo peso de quando tinha 22 anos. Havia época em que engordava um pouco, devido à comilança causada um pouco pela ansiedade. Aí a galera caía em cima achando que não estava legal e tudo mais. Então eu emagrecia novamente e falavam que eu estava com aids. A verdade é que se prestarmos atenção demais no que os outros pensam à nosso respeito acabamos pirando de verdade. 
    Minha principal atividade era correr e jogar um futebolzinho, não somente nos finais de semana. Desde criança que corro atrás da bola e é um dos bons vícios que adquiri ao longo de minha vida. Sou da época em que a molecada jogava futebol nas ruas, e os gols eram geralmente marcados por pedras. 
    Mas, em 2014 tive uma lesão no dedão do pé esquerdo e, devido ao não devido tratamento acabou virando uma fratura por stress. Passei por dois longos anos atrás de uma solução,  mas em vão. Consulta com ortopedista particular é muito cara e a cirurgia então nem se fala. 
    Foi complicado assimilar que de uma hora para outra já não podia mais correr, andar e me movimentar como antes. Gosto tanto de andar que já fiz algumas viagens a pé, com a minha mochila e a barraca nas costas. A mais longa foi a viagem pelo Caminho velho da estrada real, que liga os municípios de Outro Preto-MG á Paraty, no Rio de Janeiro. Foram 710km em 23 dias de muitas alegrias e alguns perrengues que me fazem rir até os dias de hoje. Não sei explicar isso: desde pequeno tenho essa vontade de andar por aí e conhecer novos lugares. Me lembro que, saía meio sem rumo por Belo Horizonte quando tinha uns 10 anos e às vezes ficava perdido de tanto andar. Certa vez tive que pedir para uma senhora a grana da passagem de ônibus até a praça da liberdade, pois estava em um bairro totalmente desconhecido para mim naquela época. 
andanças pela estrada real em Minas Gerais

    Passei dois anos pós fratura bem complicados. Cheguei a pensar em tirar a minha vida, ao sair dos hospital com a seringa do soro ainda em minhas veias. Estava usando blusas de mangas compridas.  Havia pesquisado na internet sobre meios de tirar a minha vida sem muitas dores. Não estava mais conseguindo viver daquela maneira, sem poder andar e correr como antigamente. Então fui até um local afastado e a minha intenção era deixar o sangue sair até o fim,  mas, para o meu azar naquela época e sorte nos dias atuais  ele já estava coagulado e seco no caninho do soro. Sentia muitas dores no local da fratura e também em outras partes do corpo, pois não estava andando corretamente e tampouco me exercitando como antes. Para piorar, nessa fase de tristeza comecei a comer muito e engordei um pouco. 
    Com o não atendimento adequado, passei a consultar o Dr Google. Comecei a tomar o cloreto de magnésio, que é um ótimo mineral para as articulações. Aos poucos fui sentindo alguma melhora, a fratura também foi se calcificando e a dor diminuindo. Dei uma maneirada na comilança  e voltei ao meu peso normal. Também comecei a fazer atividades físicas e após muitas experiências consegui achar um tênis super confortável e macio que me ajuda bastante a andar sem forçar a articulação do dedão. Os médicos me haviam indicado sapatos de solado duro, mas doía muito a região da fratura, pois o couro iria demorar muito para amaciar. 

Essa é a minha companheira Margarida

O começo do ciclismo

      O início no ciclismo não foi muito agradável, pois havia comprado uma bicicleta bem simples e o quadro dela não era do tamanho indicado para a minha altura. Quando pedalava por mais de uma hora sentia muitas dores na nuca e muito cansaço muscular. Na verdade estava reaprendendo a pedalar, pois só tive bikes durante a minha infância. Com o passar do tempo fui adquirindo conhecimento de certas práticas que deixam a pedalança mais agradável: o tamanho do quadro, a regulagem e o tipo de selim, roupas apropriadas e alguns componentes razoáveis. Aproveito esse trecho da postagem para agradecer à todos que me ajudaram e ainda ajudam a montar e a manter a bike funcionando. 
   Aliás, neste caso, não é uma bike, é a Margarida, a minha companheira fiel e inseparável desde o ano de 2019. Eu a achei em um classificado de vendas de bikes. Era só o quadro. Quando a encontrei, estava jogada em um quintal e o proprietário queria mais era desocupar o espaço de sua residência do que ganhar dinheiro. Então me vendeu dois quadros por 40 reais. Não poderia comprar um, tinha que comprar os dois quadros que estavam em seu quintal.  
    Depois de uma breve inspeção, amarrei os dois quadros na garupa de minha bike antiga e voltei para casa. A Margarida era maior, o tamanho adequado para a minha altura. O outro quadro dei para o mecânico, em troca da montagem da bike. Pode parecer insanidade, mas só quem é ciclista sabe a relação que temos com as nossas magrelas. São tantos benefícios que elas nos proporciona que não tem como não adotá-la meio como uma amiga e então batizá-la.
    A bicicleta ficou bem melhor e mais leve, já que a Magá é de alumínio. O pedal começou a ficar bem mais prazeiroso e comecei a pedalar por distâncias bem mais longas sem ficar muito detonado. Mas, quando me sentia exausto, era um cansaço gostoso que relaxava meus músculos depois de um bom banho morno após a pedalança. Era o cansaço causado pela quantidade de km percorrido e não pelo esforço  por ter pedalado em uma bike  não muito bem equipada. 
    Então, em 2019 fiz a minha primeira cicloviagem Pedalei 3050km entre os estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Foram muitas alegrias e perrengues que nunca irei esquecer até os últimos dias de minha vida. Não imaginava que iria conseguir pedalar por tanto tempo seguido e por tantos quilômetros. Ficava cansado só de ver os vídeos de cicloviagens no youtube.  Mas, quando estamos na estrada uma energia que não sei de onde vem vai tomando conta da gente e, quando nos damos conta, estamos pedalando por volta de 100km por dia na maior alegria e disposição. Se bem que minha intenção em uma viagem de bike não é a  velocidade e nem os Kms percorridos,  quero mais é curtir o caminho, sentir aquele ventinho batendo em meu rosto sem me preocupar com nada. 
     Durante os dois meses de viagem em nenhum dia tive a vontade de usar o fone de ouvido para curtir uma música durante a pedalança, queria mesmo era ouvir os sons do caminho: pássaros, o vento, as pessoas nos cumprimentando. Não sou muito comunicativo e sou de ficar mais na minha mesmo, apesar de que durante uma viagem quanto mais amigos fizer melhor. Mas também não posso mudar o meu jeito de ser, soaria um pouco falsa a minha aproximação. As amizades que fiz ocorreram de maneira natural e casual. 
    Voltei para casa e, em menos de dois meses já queria pegar a estrada de novo. Estava me preparando para ir para o Uruguai, mas o coronavírus chegou e tive que adiar meus planos. 

Benefícios do ciclismo 

    Depois que descobri que o que atormentava a minha mente era um transtorno mental chamado esquizofrenia, procurei ajuda médica e passei a tomar os medicamentos indicados para esse tipo de doença. Mas me sentia muito cansado, sem libido e com muitos outros efeitos colaterais. Me sentia um robô, tanto fisicamente como emocionalmente. Esses antipsicóticos parecem cortar nossas emoções, e não achava graça em nada, nem mesmo nos gols que o meu time do coração fazia. E também não ficava com raiva quando ele perdia. Enfim, nada mais me importava e  não acho isso um bom conceito de paz. Paz para mim é estar bem consigo mesmo, ter a consciência tranquila e saber se proteger de energias e ambientes negativos. 
    Depois que comprei o meu primeiro computador, por volta dos 42 anos comecei a estudar o transtorno e também a procurar alternativas para ter uma vida com qualidade sem muitos sustos e surtos psicóticos. E descobri que a atividade física deve ser parte indispensável no tratamento de qualquer tipo de transtorno mental. 


    Muito se fala sobre a melhora na parte física na prática de algum esporte. O que poucos falam é sobre a melhora também na saúde mental.... 
    A atividade física nos dá aquela sensação de prazer, causada pela liberação da endorfina, serotonina e outras inas mais. Ajuda a diminuir a ansiedade, o stress e nos faz esquecer dos problemas do dia a dia.Ajuda também na qualidade do sono, que é imprescindível para recuperar nossas energias para o dia seguinte.
      Outro benefício na saúde mental que a bike nos proporciona é na questão da respiração. Melhoramos o nosso fôlego e  respiramos melhor. Uma respiração correta ajuda a oxigenar melhor nosso cérebro. 
       Pedalar em meio à natureza parece ter um efeito ainda maior: a qualidade do ar, a paisagem, o som dos pássaros cantando... E se tiver uma bela cachoeira para se refrescar melhor ainda. 
     Além de tudo isso, cuidar de uma bike é uma ótima terapia. Deixá-la limpa e lustrada é um excelente passatempo. Aprender a mecânica de uma magrela ocupa a nossa mente com algo positivo, afinal estamos exercitando nosso cérebro. Eu, que havia estudado eletrônica e detestava mecânica agora meto a mão na graxa para manter a Margarida em forma para novos desafios. 
O ciclismo também ajuda na socialização das pessoas.


     O ciclismo pode ajudar e muito na socialização, pois sempre encontramos alguém durante o pedal. Seja durante o percurso ou quando  paramos  para comer alguma coisa em uma lanchonete para repor as energias. Até eu que sou um pouco (na verdade muito) fechado, consigo fazer algumas amizades. Acho que falei mais na minha cicloviagem de dois meses do que no ano anterior inteirinho...
     Também existem os grupos de pedal, que se reúnem nas redes sociais e combinam trechos para percorrer. Reunir a turma para um pedal no final de semana é uma excelente diversão. Curtir a vida não quer dizer necessariamente cair na night e frequentar um barzinho e "tomar todas"... 
    Aliás, quem pedala nos finais de semana costuma acordar bem cedo, então nada dos embalos de sábado à noite... 
    E também tem os benefícios na parte física: ajuda a manter o peso, mantém os músculos em ordem, ajuda no combate aos problemas do coração, pressão arterial, diabetes, etc. Enfim, não irei me estender muito para a postagem não ficar muito longa, pois é chover no molhado falar sobre as melhoras no organismo de uma pessoa ao praticar uma atividade física.  Nos grupos do facebook de ciclismo o que não falta são relatos de pessoas que afirmam ter melhorado sua vida depois do ciclismo. 
    O que pouco se fala é sobre o ganho de qualidade na saúde mental na prática de esportes. E por esta razão fiz esta postagem.  Os médicos orientais procuram separar o indivíduo, o físico é uma coisa, a parte mental é outra. Na minha humilde opinião e sem muita filosofia não tem como se sentir bem na totalidade se estamos mal em uma das partes. E também tem a parte espiritual, mas isso é assunto para outras postagens. 

E a luta continua...

      Não me considero um vencedor nesta luta contra a esquizofrenia. É uma luta diária, que parece não ter fim. Mas hoje aprendi a melhor conviver com ela e posso me considerar um sobrevivente, ao analisar por tudo o que passei em minha vida. Graças à ajuda de pessoas de bom coração hoje eu estou digitando estas linhas e ajudando as pessoas que estão passando hoje o que passei há alguns anos atrás. 
       Por volta do ano de 2003 não conseguia sair de casa sem uma cartela de diazepan no bolso. Em dias de muito estresse chegava a tomar cinco comprimidos de 10mg por dia. Sim, tinha que tomar durante o dia também, para não surtar de vez. Cheguei a tomar vários antipsicóticos fortes, como o haldol, que nos deixava meio como zumbis. 
     Hoje não tomo mais antipsicóticos e consigo sair de casa sem as cartelas de diazepan. Aliás, só tomo quatro comprimidos de 10mg por mês, pois meu organismo infelizmente ficou viciado nessa droga de droga de ansiolítico. 
     Enfim, a luta contra esquizofrenia é como um jogo em que você precisa conhecer bem o adversário para descobrir os seus pontos fortes e fracos. E cada dia é como se fosse uma nova partida, se no jogo anterior ela te venceu, no dia seguinte você tem a chance de melhorar e se sair melhor nessa luta. 
     Espero ter ajudado com o meu relato sobre a prática do ciclismo. Recomendo de coração que  pratiquem alguma atividade física. Não precisa ser necessariamente o ciclismo, cada um tem a sua maneira de ser e então tem suas preferências particulares esportivas.  Não adianta muito se exercitar fazendo algo que não gostamos muito, a atividade física tem que ser um prazer e não uma obrigação. 


Sugestão de leitura

Ciência explica como o ciclismo muda o seu cérebro e te faz mais forte mentalmente

domingo, 10 de outubro de 2021

Problemas na bike

 Olá pessoal. 

    Sou aposentado e estou com problemas no meu meio de transporte, que é a bicicleta. Em maio paguei 120 reais para fazer a manutenção nela e no entanto o problema novamente apareceu em menos de dois meses. O mecânico infelizmente disse que não poderia dar garantia. 

    No momento estou com dificuldades financeiras pois por causa da pandemia não estou conseguindo pagar os empréstimos que fiz antes dela chegar. 

    Uso a bicicleta para tudo, pois tenho o dedão do pé esquerdo quebrado, e a cirurgia é muito cara. 

    O conserto fica por volta de noventa reais, mas desta vez quero comprar as chaves que são específicas, para assim não ficar dependendo muito dos mecânicos. No youtube tem vários vídeos explicando como se faz o conserto, e não é muito difícil. É a única parte da bicicleta que não aprendi a arrumar, por causa do preço das chaves específicas. 

    Precisarei de comprar duas chaves e provavelmente a peça que se chama movimento central. Tirei a foto e print de tudo para melhor explicar e provar a situação. 

    Sou aposentado pelo CID F20 como podem ver na imagem, espero que não me julguem, pois sei que tem pessoas em situação até pior do que a minha. Mas é com a bicicleta que saio para almoçar no restaurante popular e resolver os meus problemas.

Qualquer ajuda é bem vinda: dois reais, cinco reais. O número da conta é esse, caso prefira fazer PIX mande mensagem nos comentários que passo o meu número.

Ou se preferir envie um email para: memoriasdeumesquizofrenico555@gmail.com

Julio Cesar dos Santos

   Agência 2332 Ipatinga MG

   Caixa Econômica Federal

   Operação 023

   Conta 000.834.123.454-6



Esse é o laudo do meu dedão quebrado

nota fiscal do conserto da bike em abril deste ano



as peças que terei que comprar, aqui em Belo Horizonte é um pouco mais caro, pois o frete não foi calculado

Este é o meu dedão quebrado

Os meus empréstimos que não estou conseguindo pagar



segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A pessoa com esquizofrenia consegue se lembrar das coisas que fez durante um surto?

 O esquizofrênico perde a memória durante uma crise?


     O título da postagem é uma indagação feita por muitas pessoas portadoras de esquizofrenia, principalmente nas redes sociais. Talvez elas não sejam a melhor ferramenta para se informar sobre transtornos mentais. Mas, de uma certa forma, acaba sendo a única. E explico o por que. Infelizmente muitos profissionais da saúde mental não dialogam com os seus pacientes, e, se quando o fazem, muitas vezes não é para responder dúvidas do próprio paciente e de seus familiares. Então o jeito é googlar ou perguntar aos amigos virtuais que tiveram experiências semelhantes, o que não deixa de ser algo muito válido. Afinal, só quem passa por certas experiências que a esquizofrenia nos faz passar é que pode descrever com exatidão o que é ter esse terrível transtorno. 
     Antes de tudo é preciso dizer que esquizofrenia não é somente os surtos. É também uma série de comportamentos, pensamentos, atitudes e outras questões mais. O surto, como o próprio nome sugere, é um pico, é algo passageiro. Como um surto de dengue, para tentar exemplificar melhor a situação. 
    A esquizofrenia tem vários sintomas, e os mais comuns são: mania de perseguição, paranoias, delírios, falta de contato com a realidade, etc...
     Por experiência própria, defini o surto quando esses pensamentos persecutórios e paranoias acabam se tornando realidade na mente do indivíduo. E o que provoca os surtos? São os gatilhos, que podem ser um trauma, um acidente, stress, drogas, enfim, coisas do nosso mundo, principalmente o que estamos vivendo atualmente. 
     E o que acontece durante um surto? Na imaginação da maioria das pessoas o indivíduo sai pelas ruas atirando pedra em todo mundo. Mas não é bem assim...
     Não existe ser humano idêntico ao outro e a esquizofrenia é uma doença não só do cérebro, é da mente também. Por isso cada um reage de sua maneira, cada um tem sua piração. Ninguém é igual à ninguém e também não tem a mesma vida que a outra pessoa tem. Pode sim ter situações semelhantes e comportamentos semelhantes, mas nunca idênticos. 
      Alguns sim reagem com agressividade, afinal, em sua mente muitas pessoas o querem prejudicar, estão tramando algo contra ele. 
      Mas, por experiência própria e por convívio com outros portadores e também através dos meus estudos posso dizer que a maioria das pessoas com esquizofrenia se isolam em suas casas, e muitas vezes deixam de estudar e trabalhar. 
     Já outros  fogem de suas casas, não é raro ver por aí nas ruas cartazes de pessoas desaparecidas, informando nome, idade e, muitas vezes que a pessoa tem algum tipo de transtorno mental. 
      Como afirmei, nos surtos as paranoias meio que se tornam realidade na mente das pessoas com esquizofrenia. Vão morar nas ruas, perambulam pelas estradas e até fogem para outras cidades e estados. E, infelizmente, muitos acabam tirando a sua própria vida. Afinal, é mais fácil matematicamente falando se auto-exterminar do que matar todos aqueles que imagina estar querendo matá-la. No meu caso essa última alternativa aconteceu algumas vezes, e sem sucesso, como podem notar nestes escritos do blog e do meu canal no youtube. 
        As pessoas com esquizofrenia continuam a escutar e a ver, mas não normalmente. Escutam e veem coisas reais e irreais. E raciocinam também, mas dentro da realidade que está em suas mentes. 
      No meu caso em particular, no início dos surtos graves pedia demissão do meu trabalho e ia tentar a vida em outra cidade, numa tentativa de fugir dos inimigos que imaginava estarem somente naquela cidade. Mas não adiantava a mudança, os inimigos imaginários continuavam a me perseguir. E então ia para as ruas e, me sentindo também perseguido nas cidades, ia para a última alternativa: as brs. 
muitos andarilhos têm algum tipo de transtorno mental


       Existe um sintoma da esquizofrenia que não é muito comentado mas sinto que é muito presente na mente das pessoas com esquizofrenia: o sentimento de culpa exagerado, que, inclusiva fazia parte do CID F20 (esquizofrenia paranoide). Atualmente esse sintoma foi retirado do CID, juntamente com o complexo messiânico O motivo não sei, talvez queiram resumir a esquizofrenia à um simples desequilíbrio químico do cérebro, esquecendo a parte mental. 
     Nessa minha fuga, um enorme sentimento de culpa assolava a minha mente. Pensava ser o culpado de tudo o que havia acontecido de errado no mundo. Acho que se os surtos fossem em setembro de 2001, provavelmente iria assumir o atentado das torres gêmeas...
    Muitas lembranças viam a minha mente, numa sequência alucinante. E todas essas lembranças me culpavam de algo que havia feito e também do que não havia feito. Quando estava na BRO40 próximo de Belo Horizonte sentido Mariana, passei por um local que, há cerca de doze anos atrás havia presenciado uma cena que parecia ser um início de um estupro. Já havia esquecido aquele fato, mas o retorno ao local reavivou todos os detalhes daquele dia: estava em um caminhão carregado de equipamento de som rumo à Mariana, para fazer um evento naquele município, não tenho certeza se era comemoração do aniversário da cidade. 
     Estávamos em uma forte subida e vi, do outro lado da BR, dois homens arrastando uma mulher para dentro do mato. Pedi para o motorista do caminhão parar e descermos para ajudar a mulher mas ele afirmou que o veículo estava muito pesado e que seria impossível parar naquele lugar. Não insisti, mas fiquei um pouco assustado, tanto com a cena como também pela frieza do motorista.
     Alguns quilômetros depois passamos por um posto da polícia rodoviária federal e novamente pedi para o motorista parar e avisar para a polícia, mas ele novamente continuou seguindo caminho...
     Não podia fazer nada, naquela época nem celular existia. Mas, por causa da correria do trabalho, acabei me esquecendo daquelas cenas. Operador de som é um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair de um evento. 
      Então, quando passei novamente por aquele lugar tudo voltou bem vívido em minha mente. Imaginava que a mulher e sua família estavam me perseguindo por não ter tomado nenhuma atitude. Me sentia culpado também por ter acreditado que estava com AIDS, por causa de boatos que circulavam na cidade onde trabalhava, no leste de Minas Gerais. Me sentia culpado não exatamente por ter aids, e sim por supostamente ter contaminado as poucas pessoas com quem tive relação sexual sem o uso do preservativo. Esse pensamento foi um dos gatilhos para o meu surto mais grave. Naquela época o tratamento para AIDS já havia evoluído bastante, mas ainda restava um pouco daquele pensamento de que a síndrome era meio que uma sentença de morte para o portador.
     Enfim, muitas lembranças invadiam a minha mente e a  minha principal reação era fugir, fugir e fugir....
o sentimento de culpa exagerado é um dos sintomas da esquizofrenia


       Me lembro de quase tudo o que me aconteceu durante os surtos: as tentativas de extermínio, a fuga pelas brs, o período que passei dentro do mato, a volta para o centro de Belo Horizonte, a ajuda das pessoas até o momento que consegui me recuperar.  Me lembro da primeira vez que comecei a voltar um pouco para a realidade. Isto aconteceu em uma manhã de um dia da semana qualquer, pois o centro estava bem movimentado. Já estava  voltando a me alimentar, havia perdido 25 kg naquela fuga pelas brs, não estava me alimentando, apenas bebendo muita água. Quando passei em frente de uma farmácia, uma vaga lembrança apareceu em minha mente: tinha o costume de me pesar com frequência, era quase uma obsessão estar dentro de uma faixa de peso. Para minha surpresa a balança digital indicou que eu estava pesando 60kg! A reação foi mais de surpresa do que de espanto. "O que está acontecendo?"... - me perguntei naquele momento.
    Um fato que não consigo narrar ou me lembrar foi quando entrei em um local que parecia ser uma livraria. Caminhei até a estante e apontei para um livro azul que deveria ter aproximadamente umas 400 páginas.
     Saí da loja e sentei na calçada. Naquela fase ainda não estava me comunicando com as pessoas através da fala. E comecei a ler o livro numa velocidade incrível, pelo menos foi o que me resta de lembrança e de entendimento. Não posso afirmar se fiquei ali uma hora, duas ou até mais horas sentado lendo aquelas páginas, que pareciam narrar um assunto muito interessante, pois fiquei totalmente desconectado do mundo exterior durante a leitura.. Acredito que no meu caso em particular tenha havido sim algo de espiritual durante aqueles surtos, pois muita coisa estranha aconteceu. 
      Enfim, praticamente tudo o que me aconteceu consegui me recordar e registrar em um livro, que intitulei "Mente Dividida", pois achei que resumia bem o estado em que minha mente se encontrava naquela época dos surtos mais graves. Mas não ficava dividida meio a meio realidade e paranoias, nos surtos acho que ficava 90% na psicose e apenas 10% na realidade, pois sabia que tinha que beber água, dormir, etc... (você pode adquirir o livro Mente dividida através do link abaixo:
      Posso afirmar que a maioria das pessoas com esquizofrenia durante os surtos se lembram do ocorrido, não só por experiência própria, como também através dos diálogos que tenho com outros  portadores. Acredito que a maioria imagina que a pessoa surta, agride várias pessoas e depois é contida por enfermeiros e depois não se lembra de nada.  Acredito que por volta de 10% das pessoas com quem conversei afirmou não se lembrarem de nada do que havia acontecido durante um surto. 
       O motivo de não se lembrarem ainda não encontrei. Como não era agressivo, nunca cheguei a tomar um sossega leão ou um medicamento mais forte. Talvez uma dosagem forte faça as pessoas se esquecerem de alguns fatos. 
       Também os meus escritos e videos são baseados em estudos que faço, visitando sites confiáveis e vendo alguns vídeos de alguns psiquiatras que acho interessantes. Não gosto daqueles que resumem a esquizofrenia à um simples desequilíbrio químico do cérebro, seria simplificar demais a doença. 
Esses profissionais costumam comparar a esquizofrenia à diabetes, que é só tomar o remedinho e tudo ficará bem....
    Enfim, a esquizofrenia é um transtorno mental em que pode ocorrer os surtos, mas não tem nada a ver com amnésia... 
  

    Na verdade o que pode afetar a memória são os ansiolíticos e os antipsicóticos. Na época em que tomava diazepan, duas vezes ao acordar não sabia onde estava e nem quem eu era. Entrei em desespero e tive que ficar puxando pela memória por cerca de um minuto. Aos poucos as lembranças foram voltando, mas a partir desse dia comecei o desmame desse ansiolítico. Isso aconteceu por volta do ano de 2008, e, hoje ainda sou dependente, mas tomo, no máximo, 4 comprimidos por mês, para não ficar muito irritado. Já cheguei a tomar 20mg por noite e considero uma pequena vitória essa boa diminuição do medicamento.