quinta-feira, 6 de junho de 2013

Estrada Real: 15º dia


22 de maio de 2013-quarta feira
Cruzília-Baependi-Caxambu
    Acordo não muito animado, apesar de ótima noite de sono. É daquelas manhãs em que não acho graça em nada. Também estou um pouco triste por deixar Cruzília, cidade que me recebeu tão bem. 
    Depois de um dia de folga, é hora de recomeçar. A dor na canela esquerda foi bastante aliviada com o repouso e com a injeção. Há ainda um incômodo e tenho receio que a dor volte. 
    Ontem foi um dia quase perfeito. Quase, por que não existe a perfeição, e também por que machuquei o dedão do meu pé em uma calçada de Cruzília, que, em alguns quarteirões, são bem estreitas. Me machuquei ao ir para o canto da calçada, quando passava uma senhora. Sem querer, pisei bem na quina da calçada e levei um corte bem profundo no dedão. Confesso que deu vontade até de chorar na hora, não pela dor, e sim pelo incômodo que isso irá causar, por não poder usar o tênis. 
    A princípio, pensei que o machucado não fosse tão sério assim, ao vê-lo de noite.  Mas, a luz do dia percebi que era bem mais complicado do que eu pensava. Ainda bem que eu não arranquei a pele, que ficou meio que solta no dedão. Eu sou daquelas pessoas que não para de ficar fuçando os machucados, nunca tive paciência de esperar uma ferida cicatrizar completamente e não paro de ficar mexendo na casquinha, acho que tem muita gente assim também. Acho que vou ter que fazer o restante da caminhada de chinelo. 
    Hoje, o caminho a ser percorrido é bem light. São 26km de estrada de terra, e o melhor, tem lugar para almoçar no meio do caminho. Apesar da folga e da comilança do dia de ontem, creio que ainda estou abaixo do meu peso, só de me olhar no espelho. Mas engordar é fácil, isso não é problema. 
    A estrada para Baependi é legal de se percorrer, só tem muita poeira e algumas subidas fortes no início. Depois do marco 1100 entro em uma trilha, fácil de ser percorrida, mas sem sinalização. Erro o caminho e vou parar no meio de um cafezal. Nesse trecho é só seguir em frente na principal, não entrando a direita para não entrar em uma propriedade privada.

pedra de São Thomé
    Volto a trilha e começo a cantar. Meu humor melhorou depois que o sol apareceu. Acho que a propabilidade de alguém aparecer por aquela trilha é de 0,0000000002% e então começo a "cantar". Primeiro Zeca Pagodinho, usando o colchonete como tan tan e, depois emendo com Another Brick in the wall, do Pink Floyd. Depois do refrão, em uma curva, me aparece uma mulher, vindo do nada, subindo a trilha com uma bicicleta ao seu lado. 
    - Aqui sai na BR, né?- perguntei, meio sem graça. 
    Ainda bem que não era uma cachoeira. Mas também ela não iria se assustar, nem iria ver grandes coisas.

a cidade de Baependi está toda enfeitada por causa da beatificação de Nhá Chica
     Chego a Baependi por volta das onze horas, mas levo um bom tempo para se chegar ao centro da cidade. Fico surpreso ao olhar a planilha e constatar que andei 18km na parte da manhã. Almoço muito bem em um ótimo restaurante da cidade e ai depois me bate aquele soninho. Procuro um lugar mais tranquilo e, como faltam apenas 6km para se chegam em Caxambu, resolvo tirar uma soneca. Creio que descansei por uma hora, só parando quando um cachorro começou a lamber minha cara querendo brincar comigo. Como ele não estava me dando sossego, resolvo prosseguir. A cidade de Baependi está toda enfeitada com bandeirinhas nas cores verde e amarela, em homenagem a Nhá Chica, que foi beatificada pelo papa e viveu naquela cidade. 
    No caminho para São Sebastião da Vitória, vi, em uma placa na BR, que Nhá Chica nasceu no povoado de Rio das Mortes, perto de São João del Rei. Por que não mudam o nome do povoado para Nhá Chica? Ou um outro nome qualquer, menos de rio da morte.
    O caminho para Caxambu é todo plano, só retas mesmo, quase não passa veículos. Só o início é que tem muitas pedras de São Thomé espalhadas pelo chão e temos que ter cuidado para não pisar nelas e sofrer uma torsão no pé. Chego em Caxambu por volta das três horas da tarde. Acho que foi o trecho mais tranquilo e agradável de se percorrer, tirando a trilha do início. Vou em uma lan house para descansar um pouco. A net é bem lenta, para variar, mas o preço, bem salgado: três reais! Em Cruzília, uma net melhor é 1,25 reais a hora. É a estrada dos reais... 
    Lá pelas cinco da tarde procuro um local para tomar um bom banho. Não encontrei nenhuma cachoeira pelo caminho e, acho que, mesmo se encontrasse, não entraria na água, por causa do frio. Resolvo então ir até a rodoviária para encontrar um chuveiro, mas, o o que eu encontro pelo caminho? Um ginásio de esportes! Sem cerimônia vou entrando na quadra e falo para o pessoal que está batendo uma bolinha sobre a minha viagem, e eles me deixam tomar um banho numa boa. O chuveiro é quente, o dia está sendo melhor do que eu esperava. 
    Na ida para rodoviária encontro um local legal e tranquilo para montar a minha barraca: um velório! Não que estava tendo um velório no momento, é que o local é usado especificamente para essa ocasião. Tem pouco movimento em volta, e, se não morrer ninguém na cidade, creio que terei uma boa noite de sono. 
    Vou ao principal supermercado da cidade para conseguir o imprescindível papelão. O cara que me atendeu foi super legal comigo e me arrumou um monte, tudo arrumadinho dentro de uma caixa de TV de LED de não sei quantas polegadas. 
     Foi um dia legal, sem perrengues, com pessoas legais pelo caminho, e sem muito cansaço durante a caminhada. Vou para a praça lanchar, havia comprado algumas frutas no supermercado. O centro de Caxambu é bem legal e simpático, bem limpo e sem muita confusão. Um cara, ao ver minha mochila, começa a conversar comigo. Ele me pergunta onde pretendo montar a minha barraca e respondo que será no velório. Ele acha engraçado e me diz que na rodoviária, no ponto de táxi, tem um bom lugar para dormir. Respondo a ele que, assim que acabar de escrever, irei para lá. 
    Como disse, foi um ótimo dia. O caminho é legal de se percorrer, não fez muito calor, tem lugar para se almoçar na hora certa. Acho que se a estrada real fosse toda assim, iria ficar meio sem graça. Bem, se a noite vai ser tranquila ou não, só saberemos no próximo post em mais um capítulo de: O esquizo na estrada  dos reais.

água mineral grátis em Caxambu

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Estrada Real: Folgaaaaaaaaa

21 de maio de 2013
Cruzília

    A noite foi muito tranquila, estou me sentindo muito bem em Cruzília. Não poderia ter escolhido cidade melhor para descansar. Policiais passaram por mim e viram a minha barraca várias vezes, mas nem me abordaram. Fiquei muito feliz por esse simples fato. 
    Não fiz nada hoje, além de comer e dormir o dia inteiro. Aliás, fiz uma coisa: fui ao pronto socorro, para ver se conseguia tomar uma injeção e dar uma zerada nas minhas dores generalizadas causadas pelo stress de andar duas semanas sem parar pelas serras de Minas Gerais(essa é a mais nova doença que inventei, e vai estar no próximo DSM).
    Fui muito bem atendido por uma enfermeira loirinha e bonitinha. A principio, ela não quis liberar a injeção, mas, depois de um pouco de insistência e encenação, ela resolveu me ajudar. Já havia tomado essa injeção no Caminho do Padre Anchieta, no Espírito Santo. É na poupança de doi demais. 
    A enfermeira de Cruzília pediu que eu entrasse em uma sala e aguardasse. Sentei em uma cadeira e logo fui colocando o braço naquele negócio de ferro que serve de apoio para se tomar injeção no braço, uma forma de dizer o local em que gostaria de tomar a injeção. 
    "Ah!, Mas a loirinha é bonitinha, não tem nada haver mostrar a parte de cima da poupança para ela"- pensei. 
    Estava sentado distraído esperando a injeção quando, de repente, entrou uma mulher do meu tamanho e até mais forte do que eu. A loirinha estava no corredor e ficou olhando para mim, querendo dizer alguma coisa. Não captei a mensagem na hora, mas deve ter sido algo do tipo:
    - Ha! Pensou que fosse eu né, seu safado!
     A enfermeira grandona foi logo fechando a porta e, sem cerimônia, pediu para que eu abaixasse um pouco a calça. A injeção não é no meio da nádega e sim naquele músculo que começa na parte de cima, e doi muito mesmo. Nâo sei se ela estava com raiva naquele momento ou se o correto é fazer isso, mas ela deu a injeção sem dó e piedade, de uma vez só. O problema maior é que a dor demora um pouquinho para passar, e procuro sair disfarçando um pouco, fazendo  aquela cara de que está tudo bem.
    Tirando a injeção, foi um dia agradável. Pão de queijo, broa de fubá, padaria, banco da praça... 
    Estava com preguiça até de tirar foto, por isso hoje tem música. É de um cara aqui de Minas também, o Vander Lee, tem lindas músicas, e uma delas é essa: 



terça-feira, 4 de junho de 2013

Estrada Real: 14º dia


20 de maio de 2013- segunda feira
Vista Alegre-Cruzília
   Acordo um pouco cansado, não consegui nenhum pedaço de papelão no povoado de Vista Alegre, e não deu para conseguir, não só por causa do frio como também pelo fato do colchonete já estar um pouco achatado com o tempo e não estar mais macio. A noite foi tranquila, sem movimento algum, não se ouvia nada, muito bom mesmo. 
   Tomo um cafezinho no único bar do povoado e, ao entrar, fico impressionado com a semelhança do nariz do balconista com o do Michael Jackson(depois da operação). É idêntico! Fico me perguntando se o cara não fez plástica também, mas acho que não, é natural mesmo, ele não iria viajar para São Paulo ou Rio de Janeiro só para fazer uma plástica e se parecer com o Michael Jackson. E ele também deixou o cabelo grande, que ficou bem parecido. Se colocasse uma maquiagem, podeira fazer o cover do rei do pop.
    Estou  na dúvida, não tenho uma meta definida para hoje. Segundo a planilha, tenho que percorrer 42km para chegar ao município de Cruzília. Com esse peso nas costas e com a dor na canela, não conseguirei andar essa distância toda. Não existe um povoado no meio do caminho e talvez eu tenha que dormir no meio do mato desta vez. Não que eu tenha medo, mas, como já disse antes, essa barraca que estou usando não é própria para o clima frio. 
   Penso em tentar um carona lá pelo quilômetro vinte e cinco, mas, logo no início da caminhada avisto uma placa indicando que Cruzília está à 30km de distância. Penso um pouco, converso com alguns moradores, e chego a conclusão que a estrada real sai da via principal e "dá algums voltas" para voltar nela depois. Resolvo então só seguir a principal, dando um total de 33km de distância no dia, o que já excede o limite estipulado que é de 30km por dia. 
   O dia está muito quente, o mais ensolarado até o dia de hoje. Não encontro nenhuma cachoeira pelo caminho para me refrescar. Também não encontro nenhuma casa ou fazenda para me vender ou me fornecer de graça um almoço. Passo o dia comendo frutas e biscoitos. Por volta das duas horas, a canela começa a doer um pouco e, com o tempo, vai piorando. Tenho que fazer várias paradas rápidas, não pelo cansaço, mas pela dor mesmo. Pela primeira vez, sinto sede no caminho sem ter lugar onde repor a água das garrafinhas. A região tem muitas fazendas, mas todas muito distantes do caminho, e tenho que racionar a água. Quando já não estava aguentando mais, peguei uma garrafinha vazia e comecei a fazer sinal para os motoristas pedindo água. Depois de meia hora, o motorista de um caminhão de transporte de madeira para e me arruma água. Disse que não poderia me arrumar carona, pois a firma em que trabalha não permite. 
muita poeira pelo caminho
    Para complicar ainda mais a situação, muitas subidas íngremes pelo caminho. Estou no limite, mais cansado do que no primeiro dia, em que fiquei perdido na rodovia. Estou muito suado e sujo para tentar uma carona e o jeito foi partir para o sacrifício, mesmo com a canela doendo um pouco. Uma dica para quem vai fazer a caminhada a pé e pretende conseguir caronas: sempre ande com algum pedaço de papelão, para poder descansar e não sujar a calça, afinal, ninguém vai querer dar uma carona para alguém que está com a buzanfa toda suja de terra né? 
uma pirâmide no interior de Minas?
se parece com o que? quem adivinhar vai ganhar um rocambole, num oferecimento da estrada dos reais
    Vou meio que me arrastando até chegar a BR, faltando cerca de 4km para chegar em Cruzília. Esses últimos quilômetros quase sempre são meio desgastantes, geralmente não paro para descansar, fico muito ansioso para chegar ao destino e poder descansar. 
    Por volta das seis horas chego finalmente a Cruzília. Apesar do cansaço, procuro uma lan house. Mas, antes, mato a minha saudade das padarias de Minas. Como bolo, pão de queijo(é claro), broa de fubá, enfim, tudo o que o mineiro gosta. Esses últimos 100km foram meio complicados em termos de alimentação. Se na última pesagem eu estava com 82kg, creio que hoje devo estar com 81kg, as minhas canelas, que já são finas, estão parecendo um palito. 
    Na lan house, fui muito bem atendido. Net boa, PC bom, sem travar nada, fato raro nesta viagem. Fico umas duas horas navegando, para saber das novidades e postar alguma coisa no blog. Geralmente vou para uma lan house para acessar a internet e também descansar as canelas. Já estava no limite, e acho que não chegaria a igreja matriz sem essa parada. 
    Tomo um bom banho em um dos hotéis da cidade e vou a procura do papelão, que se tornou imprescidivel para uma boa noite de sono. Encontro um local super bacana para dormir, um espaço coberto, ao lado de um bar. O estabelecimento não está funcionando, provavelmente por ser segunda feira. Procuro o dono do bar na casa ao lado, mas eles não estão. Estou exausto e, ao contrário do que sempre faço, desta vez monto a barraca sem conversar com ninguém da cidade. Desmaio no colchonete e pego logo no sono. Pouco depois, acordo com o som do motor de um carro. São os donos do bar, que gentilmente, me deixam dormir no local, sem maiores problemas. Peço a eles para montar a minha barraca amanhã também, dizendo que irei descansar um dia na caminhada. Eles dizem que não tem problema nenhum, dizendo que eu poderia dormir depois que o bar fechasse. 
    Gostei de Cruzília. Pessoas atenciosas, gentis, e não se incomodaram muito com a minha presença. Não que eu queira ser bajulado e ter tratamento especial, só quero mesmo ser tratado como uma pessoa de bem. 
Gostei tanto de Cruzília que escolhi essa cidade para ser o local da minha primeira parada para descansar nesta viagem. Estou no limite mesmo, foram treze dias de caminhada, sem parar, e não sou um atleta, e também não sou mais um garoto. Acho que estou bem para a minha idade, creio que já devo ter percorrido algo em torno de 400km. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Estrada Real:13º dia


19 de maio de 2013-Domingo
Carrancas-Vista Alegre

    Claro que ontem não fiz o que o guarda me "pediu". Na saída da cidade, conversei com um morador e ele gentilmente deixou que eu dormisse em frente a garagem de sua casa. Mesmo com o pouco papelão que consegui e com o forte vento frio, deu para dormir tranquilamente. 
    Tive que voltar para o centro da cidade para comprar um anti-inflamatório para ver se a dor na canela esquerda diminuia. A conversa com os policiais ontem me fez esquecer esse detalhe, e tive que esperar até as nove horas da manhã até encontrar uma farmácia aberta. Até que não tinha tanta pressa assim, pois hoje tive que percorrer 26km de estrada de terra em boas condições, sem muitas subidas íngremes. 
    Enquanto esperava a farmácia abrir, conversei com várias pessoas amigáveis, que tirou um pouco a má impressão que tive da cidade. Até tomei cafezinho na casa de um morador, que foi super gente boa comigo. Gostaria de agradecer aqui as pessoas que me receberam bem nesta cidade, lá tem pessoas legais sim, ontem é que ocorreu o fato desagradável, mas vale a pena visitar Carrancas, se tiver dinheiro, é claro. Não sei se já disse isso antes, mas o melhor nome para essa estrada seria Estrada dos Reais. rsrsrs 
    Todas as pessoas com quem conversei ficaram assustadas ao saberem o meu destino:
    -Mas você vai ganhar um prêmio no final?- chegou a perguntar uma mulher, estupefata.
    Disse que não, rindo. Citei o Caminho de Santiago, que é 200km mais extenso, e pessoas do mundo inteiro o percorrem na Espanha. Falo também do Monte Everest, para demonstrar que existem pessoas com ideias bem mais loucas do que as minhas. 
    Depois de comprar o medicamento, parto para o povoado de Vista Alegre. Na saída passo por várias pessoas, que fazem comentários sobre mim, ao me verem:
    - Ele é um turista doido!-comentou um garoto. 
    Talvez eu seja mesmo um turista, também doido. Doido por conhecer lugares lindos deste Brasil, mesmo sem ter grana para isso. Se isso for loucora, podem me internar. Só não sou o turista rico que a cidade de Carrancas tanto gosta. 
    Depois de dois dias cinzentos, o sol finalmente dá o ar de sua graça. O vento frio ficou para trás e aos poucos a alegria do início volta a tomar conta de meus pensamentos. Até o colchonete amarrado e pendurado em meu ombro acabou virando tan tan para que eu cantasse a música do Zeca Pagodinho:
    "Deixa a vida me levar
     vida leva eu"
tô chegando tô chegando...
      Encontro o primeiro marco que já está com a seta na parte debaixo da trilha. Isso me deixa mais animado e percebo que estou indo em um bom ritmo, acho que já devo estar na metade do caminho. 
    Como no caminho não tem restaurante, consigo almoço em uma casa no meio do percurso. Esse trecho é o mais longo sem restaurantes. Já estou pesando 82kg, quatro quilos mais magro desde que iniciei a caminhada. Tenho que percorrer 70km sem restaurantes, e ficar sem almoçar pode ser complicado, caminhando cerca de 30km por dia. Mas fora a dor na canela, estou em boas condições. 
    A família do cara onde almocei é tipicamente mineira, são bem mais fechados do que eu, e todos me olhavam com aquele ar de timidez. Com certeza não estão acostumados com a presença de estranhos. Para tentar quebrar o gelo, fazia aquelas perguntas meio sem graça:
    - O pessoal por aqui torce mais para o Corinthians e São Paulo, né?
    Mas eles foram super gentis comigo e não cobraram nada. No final me deram um monte de bananas.

    O caminho foi super tranquilo, sem muitas surpresas. Belas paisagens, muitos pássaros e bois, e poucos seres humanos. Encontro uma cachoeira e apesar da água estar muito gelada, tomo o meu banho e lavo minhas roupas. Estou me sentindo bem melhor, a volta do sol me trouxe boas energias e me deixou mais animado. Caminho sem pressa até Vista Alegre e chego ao meu destino por volta das 17 horas. No bar do povoado, pergunto se existe um local onde eu pudesse montar minha barraca sem incomodar as pessoas, e eles, gentilmente me indicam o salão de eventos. 
    Até que enfim um dia calmo e tranquilo, com um final feliz. Eu, Deus e a natureza. 
    Estava precisando disso.
    Essa música eu tenho no meu celular, e é uma das minhas preferidas. Não que eu esteja fugindo de mim nesta viagem, estou na verdade é fugindo de várias coisas de uma cidade grande, e me encontrando em meio a natureza. Mas o Wilson Sideral é um grande compositor aqui de Minas, nem acho legal dizer que ele é o irmão do vocalista do Jota Quest, pois, para mim, ele canta melhor do que o Rogério, além de ser um ótimo compositor.




Pisando fundo, acelerando tudo
Exagerando, saindo do limite
É o que eu te disse, eu sou assim
Partindo pra cima, fugindo de mim

Eu corro muito, eu vou pra todo lado
Levando comigo, quem tá do meu lado
É o que eu te disse, eu sou assim
Partindo pra cima, fugindo de mim

Ah, ah... Não perco tempo, nem perco a hora
Ah, ah... Esse é o momento, a hora é agora
Ah, ah... Vivo cada instante, não quero perder nada
Ontem está distante, ficou lá atrás na estrada

Só não existe viver sozinho, viver sem você
E sempre que eu fujo, te levo aqui, aqui comigo
Porque te amo, e eu sou assim
Partindo pra cima, fugindo de mim

Eu aproveito cada minuto
Se fiz, tá feito, eu nem discuto
É o que eu te disse, eu sou assim
Partindo pra cima, fugindo de mim

Ah, ah... Não perco tempo, nem perco a hora
Ah, ah... Esse é o momento, a hora é agora
Ah, ah... Vivo cada instante, não quero perder nada
Ontem está distante, ficou lá atrás na estrada

Só não existe viver sozinho, viver sem você
E sempre que eu fujo, te levo aqui, aqui comigo
Porque eu te amo
Só não existe viver sozinho, viver sem você
E sempre que eu fujo, te levo aqui, aqui comigo
Porque eu te amo

É o que eu te disse, eu sou assim
Partindo pra cima, fugindo de mim
Eu aproveito cada minuto
Ontem está distante, ficou lá atrás na estrada...

Só não existe viver sozinho, viver sem você
E sempre que eu fujo, te levo aqui, aqui comigo
Porque eu te amo
Só não existe viver sozinho, viver sem você
E sempre que eu fujo, te levo aqui, aqui comigo

Porque eu te amo, e eu sou assim
Partindo pra cima, fugindo de mim
É o que eu te disse, eu sou assim
Partindo pra cima, fugindo de mim

sábado, 1 de junho de 2013

Estrada Real:12º dia

19 de maio de 2013-sábado
Capela do Saco-Carrancas



    Até que a noite não foi das mais frias. Estava planejando montar a barraca colada a parede do salão de eventos de Capela do Saco, para evitar um pouco o vento frio que não parava de soprar na região.
    Um morador do povoado me cumprimentou e começamos a conversar. Ele me disse que o balseiro, que tinha a chave do salão, poderia me deixar dormir dentro do salão. Fui então para a beira do rio e esperei o balseiro terminar sua jornada de trabalho, que deve ser bem cansativa. Não faço ideia de quantas vezes ele atravessa o Rio São Francisco, mas com certeza não são poucas, pois ele praticamente não parou durante o período que fiquei esperando-o.
    Por volta das seis horas ele encerra suas atividades. Converso com ele e explico a minha situação. É um cara simples e sem maiores problemas, me empresta a chave do salão, onde tive uma boa noite de sono.
    Por volta das sete da manhã, já estava de pé, pronto para mais um dia de caminhada. Tomo um bom banho gelado, apesar do frio, mas valeu a pena, fiquei mais animado. Nem fiquei bravo quando vi a fiação do chuveiro atrás da porta quando sai do banho.
    Sigo então para Carrancas, distante cerca de 30km por uma estrada de terra, que, segundo a planilha, não está em boas condições nos últimos dez quilômetros.
    A mochila já está dando indícios de que não poderá aguentar o peso(10kg) até o final da caminhada. A costura das duas alças já está começando a se desfazer. Se, por acaso, uma alça arrebentar, estarei em sérios apuros, pois somente em lojas especializadas(caça e pesca) é que se encontra mochilas deste tipo. Comprei uma do Paraguai na primeira vez e não durou uma semana. Teria que arrumar carona até uma cidade de maior porte e comprar uma outra mochila, que aguente mais peso. Para resolver o problema, amarro a barraca e o colchonete juntos, para carregá-los no ombro, e não na fivela da mochila, como estava fazendo.
    Os primeiros quilômetros são complicados, caminho tentando achar uma posição em que o colchonete não me incomode tanto. Não estava contando com essa, de ficar carregando um peso de quatro quilos nos ombros, isso diminui e muito a minha caminhada e o meu rendimento. Mas é melhor se precaver.
    Além da bolha no pé, uma dorzinha chata no músculo da canela esquerda passa a me incomodar também(é a idade do condor). Ontem me alimentei mal, não encontrei restaurante para almoçar no caminho, e parece que o corpo cobra isso no dia seguinte
se parece com o que?
    Já não estou com aquele ânimo do início, em que tudo era novidade. Já está batendo um tédio por causa dessa rotina de caminhada, o cansaço já é maior do que o encanto de contemplar as belas paisagens do caminho da estrada real.
    Fico sempre desanimado quando vejo os marcos e percebo que ainda falta muito para se chegar a Paraty. No momento não consigo achar um estímulo que me dê animo e alegria de continuar a caminhar, tem dias que sinto que é uma obrigação andar. Creio que já devo estar perto de completar uns 40% do trajeto. Acho que, quando estiver faltando cerca de 200km para o final, irei encontar motivação para proseguir.
    Depois de percorrer cerca de 15km, consigo uma carona. Quero evitar a serra e a estrada ruim. O motorista não conhece a região e o caminho para Carrancas, e, eu, com cara de quem sabe tudo, disse:
    - Ah! É só seguir os marcos da estrada real!
    Mais adiante no caminho, ao passarmos por uma fazenda, avisto uma placa com os seguintes dizeres:
"Só 4x4"
    Falo para o motorista sobre o aviso, mas ele não me responde e continua o caminho. Logo nos deparamos com uma subida muito íngreme e cheio de pedras escorregadias. O cara não faz o retorno e continua a seguir em frente. Somente quando a saveiro começa  a exalar um cheiro de queimado é que o cara chega a conclusão de que o carro não iria aguentar o tranco.
    -É, deve ter um caminho melhor para Carrancas. - eu disse, meio sem graça. (meio não, totalmente sem graça, o cara ia seguir o caminho certo se eu não desse o pitaco).
    A subida era estreita, e com muita dificuldade, conseguimos arrumar o terreno, colocando pedras nos buracos, para que o carro pudesse dar a ré e retornar. Ficamos pulando de fazenda em fazenda até encontrar alguém que soubesse nos informar sobre um caminho mais tranquilo.
    Chegamos em Carrancas por volta do meio dia. É uma cidade bem pequena, mas é famosa por suas belas cachoeiras, boas para esportes radicais. No restaurante vejo que cenas de algumas novelas da Globo foram gravadas na cidade, ao ver nas paredes várias fotos de atores globais almoçando no restaurante.

    Depois de saciada a fome, vou para a lan house da cidade que tem uma net bem lenta, para variar. Ao conectar a câmera no PC, o desespero! Constato que o cartão de memória está danificado, pois a câmera mostra as fotos, mas o PC não as reconhece. Fiquei muito triste mesmo, mas de cem fotos da viagem não poderiam ser utilizadas.
    Resolvo consultar o "DR. Google" e acho um programa supimpa que recupera arquivos apagados em HD's, pen drives e cartões de memória. É o Recuva, é só clicar no link, se você está com esse tipo de problema, não precisa ficar desesperado e jogar o seu cartão de memória fora. Ele recuperou 90% das fotos da viagem e o cartão ficou novo.
    Por volta das sete horas da noite, dois policiais me informam que é proibido montar barracas dentro dos limites do município. A alegação é que outros turistas estavam fazendo o mesmo, montando suas barracas dentro da cidade e permanecendo por lá vários dias.
    Tento explicar a minha situação para os policiais, dizendo que estava muito cansado para proseguir, estava caminhando há vários dias sem parar. Digo para eles que minha barraca não é própria para o frio e que seria difícil dormir no mato naquelas condições. Também disse que não iria permanecer na cidade, e que as sete horas a barraca estaria desmontada. Enfim, praticamente implorei, mas eles continuaram irredutíveis e até me convidaram para sair da cidade, me mostrando o caminho e dizendo que eu tinha que seguir um quilômetro adiante na estrada de terra, na maior escuridão.
    Até que tentei prosseguir, mas não dava. Não tinha como caminhar no escuro, poderia pisar em uma pedra ou em um buraco e me machucar seriamente. Eu entendo a posição dos policiais. Se a lei municipal existe, é para ser cumprida. Mas eles poderiam ter sido mais compreensivos e terem aberto uma exceção, já que eu não iria permanecer na cidade. Eu já havia me identificado e praticamente implorei para ficar ali naquela noite, e me senti meio que marginalizado por não ser rico e trazer dinheiro para a cidade.
    Estava ciente desde o inicio de que passaria frio, calor de dia, algumas dores e outras coisas mais. Mas, ser tratado como um bandido e ser convidado a me retirar da cidade doeu mais do que tudo até agora. Nem sei descrever o que senti naquela hora, cheguei a pensar que não valeu a pena ser uma pessoa correta em toda a minha vida.
    Deu vontade de parar. No que depende de mim, ou seja, minhas condições físicas, eu me garanto. Posso chegar ao final até cambaleando, mas eu chego, se não acontecer nada fora do normal. Mas se em toda cidade eu for tratado dessa maneira, não tem como seguir. A barraca não é boa para o frio e contra  a chuva. O jeito é montá-la sempre em lugares cobertos.
    Em Prados e em São João Del Rei também fui abordado por policias, mas eles foram muito educados comigo e até me deram dicas sobre o caminho.
    A impressão é de que Carrancas fez cara feia para mim, por eu não ser um turista rico. Aliás, nem turista eu era naquele momento, só estava de passagem. A verdade é que o turismo foi elitizado na cidade, pois até a área de camping foi desativada. Acho que as novelas deixaram a cidade "se achar", principalmente os políticos. Infelizmente, só quem tem grana é que poderá conhecer Carrancas, ela faz cara feia para os menos afortunados.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Estrada Real: 11° dia


17 de maio de 2013-Sexta feira
São Sebastião da Vitória-Caquende-Capela do Saco

    Saio de São Sebastião por volta das oito horas, depois de tomar um bom café da manhã e comprar algumas frutas, pois no caminho não tem restaurante para almoçar. O dia está nublado, cinzento, com muitas nuvens, ao contrário de ontem. Foram 23km de estrada de terra, até o povoado de Caquende. O caminho é legal de se percorrer, com poucas subidas e descidas fortes. 
    Aos poucos, nuvens cinzentas escuras começaram a tomar conta do céu. Olho para o horizonte e a impressão que tenho é que está chovendo nas proximidades. Quando o vento forte começou a bater em meu rosto, resolvi me precaver contra uma eventual chuva. Afinal, até que eu podia me molhar, mas a mochila não. Tem o cartão do banco em que recebo o meu salário, o celular, a câmera, documentos, etc. Se o cartão do banco estragar, estou ferrado. Pego um plástico(de colchão novo) e forro a mochila. Tiro a barraca da mochila e a carrego nos braços, para estar pronto para a chuva, pois a barraca será a minha capa de chuva nessa viagem. 
    Caminhei um bom tempo olhando para o céu. Não queria de jeito nenhum que caísse uma chuva, estava fazendo um pouco de frio no caminho. Com o tempo e a distância percorrida, tons de cinza claro começaram a  tomar conta do céu, e o sol às vezes dava o ar de sua graça. Havia me preparado psicologicamente para tudo: frio, dias quentes, dores musculares, etc. Mas a chuva, por mais que nos preparemos, sempre é desagradável. 
    O caminho até Caquende é tranquilo de se percorrer. Só em uma bifurcação em que não tinha marco é que fiquei na dúvida. Tive que dar uma de Sherlock Holmes e, após analisar o solo dos dois caminhos, constatei que o caminho da direita tinha o traçado de carros mais forte do que o da esquerda e por ali prossegui. Ao encontrar um marco a um quilômetro de distância, vi que tomei a decisão correta. A estrada real é assim mesmo. Tem trechos em que os marcos estão muito próximos um do outro, sem muita necessidade e existem bifurcações que nos deixam na dúvida. 
o caminho até Caquende é bem agradável
     
será que vai chover?

Rio São Francisco

avançando...
    Ao contrário de ontem, procuro seguir o caminho com tranquilidade, e vou de chinelo, para que a bolha de água do meu pé esquerdo seque. Procuro não ficar olhando as horas com frequencia como fiz ontem, em que cometi uma incoerência: estava querendo chegar o mais rápido possível ao destino do dia, para ter mais tempo para descansar, mas na hora não percebi que, fazendo isso, iria me desgastar mais ainda, ou seja, estaria mais cansado para ter mais tempo para descansar. Irei prestar mais atenção aos sinais que o meu corpo dá, e vou parar sempre que estiver cansado. 
    Chego em Caquende por volta das duas da tarde, um pouco cansado, mas em boas condições. Recupero um pouco da confiança que havia perdido no dia de ontem, em que cheguei bastante desgastado ao meu destino traçado do dia, e me perguntei se aguentaria aquele ritmo até o final. 
     Além de muito frio, um vento mais frio ainda não parava de soprar no povoado, quase que congelando os dedos dos meus pés. Penso em pegar uma carona até Carrancas, distante 28km, mas logo descarto a ideia, pois me propus a fazer o caminho a pé mesmo, só aceitando uma eventual carona na BR, que pode ser um pouco perigoso de se caminhar se a mesma não tiver acostamento. 
    Estava na beira do Rio São Francisco, descansando, e resolvo pegar a balsa para o outro lado, onde fica o povoado de Capela do Saco. Assim, não tenho que depender da balsa amanhã, pois a balsa não tem horários definidos de saída e chegada. Ela vai e vem pelo São Franciso de acordo com o movimento de carros e tripulantes. 
    O preço é bem acessível(1 real) e demora cerca de dez minutos para fazer a travessia. Tenho um pouco de medo e constato que não há bote salva vidas na balsa. Eu sou meio estranho mesmo, tenho medo de coisas que a maioria das  pessoas não tem, e o inverso também ocorre, ou  seja, não tenho medo de certas coisas que a maioria das pessoas tem medo. 
    O povoado de Capela do Saco também é bem pequeno, só tem um bar e não tem como conseguir papelão para esquentar a minha barraca nessa provavel noite de muito frio na beira do velho Chico. Se a noite vai ser fria ou não para mim, só no próximo post pessoal.
se parece com o que?

sábado, 25 de maio de 2013

Estrada Real: 10º dia


16 de maio de 2013 quinta feira
São João Del Rei-São Sebastião da Vitória
igreja matriz de São João Del Rei

    Não dormi bem. Ontem, por volta da meia noite, fui acordado por dois policiais. Foi uma pena, pois estava começando a pegar no sono. Eles fizeram as perguntas de praxe: de onde vim, para onde vou, se trabalho ou não, etc. Pediram a minha identidade e depois foram embora. Para piorar tudo, o sino da igreja tocava de quinze em quinze minutos. Sempre quando ia pegar no sono, o sino tocava. Estava cansado demais para mudar  a barraca de lugar e resolvi ficar por ali mesmo. Para piorar ainda muito mais as coisas(pensava que não tinha jeito!), um vascaíno doente ficou perambulando pelas redondezas a madrugada inteira, cantando músicas do clube cruzmaltino. O por que eu não sei, faze tempo que o Vasco não ganha nada. Ou ganhou? Eu estou tão por fora de tudo, mas o campeonato brasileiro nem começou, e esse time do Vasco está muito ruim para ganhar alguma coisa. Só se tiver contratado o Messi e mais dez jogadores de seleção. 
    Por três vezes, algumas beatas, ao verem a barraca montada na igreja, perguntam:
    - O que é isso?
    - É uma barraca de camping...- eu respondia, em tom de brincadeira. 
    Depois de desmontar a barraca, entro na igreja matriz de São João Del Rei, que também é muito bonita por dentro. Desta vez, foi possível tirar fotos. Peço ao vigia para ver o mecanismo que faz com que o sino toque de quinze em quinze minutos, mas ele me diz que somente o sineiro da cidade possui a chave. Queria me vingar do sino, sabotando aquelas engrenagens. Perguntei para várias pessoas ao redor da igreja se existia algum motivo, razão ou circunstância para que o sino tocasse em um intervalo tão curto de tempo, mas ninguém soube me responder. Depois, eu que sou doido né?

  
 
     Ao sair da igreja, adivinhem quem eu encontro? O vascaíno doente, que estava de shorte e blusa de manga curta. Ao me ver, me cumprimenta:
    - E ai primo? Essa noite fez frio hein?
    Tem horas em que me sinto a pessoa mais normal do mundo!
    Muita neblina na cidade. Vou ao banco Mercantil para fazer um emprestimo, pois ultrapassei o meu orçamento inicial para a viagem. Havia combinado comigo mesmo de comer pouco e coisas mais baratas, mas, como já disse anteriormente, não tem como não resistir aos quitutes da culinária mineira. Só  de rocambole foram mais de quinze reais. 
    Muitas vezes, quando saio de manhã das cidades, rola um pouco de stress, por não encontrar o marco inicial do trecho a ser seguido durante o dia. Os moradores, às vezes, dão informações erradas e desencontradas. O melhor é sempre perguntar aos motoristas.
cenário nada animador na manhã em São João
     Ao olhar a planilha do dia, percebo que há um aviso dizendo que falta um marco no meio de uma trilha. Se já pode ser complicado seguir uma trilha com todos os marcos, imagine faltando um? "Ô pessoal da estrada real, assim não dá! Tem quantos anos que está faltando esse marco? Vocês querem que eu carregue um nas costas e o coloque lá? Me ajuda ai pô""
    Resolvo então seguir pela BR, até São Sebastião da Vitória, e assim evito um povoado com o sugestivo nome de Rio das Mortes. Isso é nome de se colocar em um povoado?
    Horas depois, fiz uma análise e me pergunto se evitei a trilha por ter passado maus momentos na trilha de Ouro Preto. Acho que a falta de um marco foi apenas um pretexto para evitar essa trilha. Vou inventar uma nova doença:"stress pós trilha difícil". Toda vez que entro em uma trilha, principalmente de mata fechada, fico um pouco apavorado, suando frio, coração acelerado. Essa doença vai estar no próximo DSM(um livro de desordens mentais, criada pelos americanos) Vou falar com alguns psiquiatras americanos, lá da Carolina do Norte, que são meus chegados e são os responsáveis por classificar(ou inventar?) as doenças. Hoje em dia está todo mundo louco. O último DSM não deixou escapar ninguém. Você, que adora e é viciado em um cafezinho, agora é um doente. Quem não sai do shopping também é, juntamente com aquelas pessoas que adoram e não saem de uma academia. Daqui a pouco, quem não tiver nada que esteja no DSM, vai ser classificado como louco, já que a maioria das pessoas possuem uma desordem mental já classificada no DSM. Ou seja, se a maioria é normal, então quem não tem desordem mental é minoria, portanto, é louca. Pra falar a verdade, eu não dou a mínima para esse tal de DSM. 
    Voltando ao caminho, sigo a BR. São 22km de estrada, que a princípio, parecem fáceis de percorrer.Mas com o tempo, o sol e as subidas íngremes mudam a minha opinião. Por volta do meio dia, já dou sinais de cansaço, mas o pior de tudo são as bolhas e as dores na planta dos pés. A musculatura até que está indo bem. Paro algumas vezes na estrada, mas não adianta muita coisa. Por volta de uma hora da tarde, já estou meio que cambaleando. O sol está de rachar e fico no meu limite, mas faço o possível para chegar cedo a cidade de São Sebastião da Vitória. A BR é muito estreita, alguns caminhões passam bem próximos a mim e o deslocamento de ar que eles provocam chega a me balançar. Não recomendo a ninguém que andem por essa BR.
br complicada de se andar


um tornado?
   Estou todo suado, minha calça e a minha camisa estão molhadas, o que dificulta uma carona. Geralmente é difícil se conseguir uma carona na BR, pois os carros passam muito rápido, e as pessoas são mais desconfiadas. Já nas estradas de terra é mais fácil de se conseguir carona. Começo a cantar, xingar, falar alto, para tentar me incentivar. Digo para mim mesmo que já passei por coisas mais difíceis e que não será algums quilometros de estrada que irão acabar comigo. Mas estou em cacos, praticamente me rastejando. Depois de nove dias andando sem parar, meu corpo já começa a dar sinais de cansaço. A noite mal dormida em São João Del Rei talvez tenha contribuido para esse cansaço todo, sei lá. Ou talvez seja o fato de andar pela BR, que cansa um pouco mais do que pela estrada de terra. Além de perigoso, é cansativo andar pela BR, por ser estreita, toda hora temos que nos encostar para deixar os caminhões passarem. Na maioria das vezes, não há espaço para se andar rente a BR, e temos que nos arriscar.
    Estava tão cansado que enxerguei o nome da cidade de São Sebastião da Vitória em algumas placas, mas depois constatei que foi apenas uma ilusão. Após um esforço fora do comum, finalmente chego a cidade. Encontro um restaurante na entrada e ao mesmo tempo que sacio a minha fome, dou um descanso para as minhas pernas. Continuo o caminho logo depois, sem ao menos tirar uma cesta. Logo chego ao último marco do dia, em frente a igreja matriz, onde alguns moradores da cidade estão conversando. Pergunto se posso montar a minha barraca naquele local, já que estava sem condições de ficar andando para procurar um outro lugar. Um senhor me fala que na cidade existe um abrigo, que era só procurar uma tal de dona Zilota.
São Sebastião da Vitória
     Após um descanso, fui atrás da tal dona, mas ela tinha saido para rezar. Vou para o abrigo e fico quase uma hora esperando a dona Zilota acabar de rezar e, quando ela passa por mim, me diz que não toma mais conta do lugar e que era para procurar um tal de João Vitor. Chego a pensar em desistir do abrigo, estava muito cansado, mas resolvo fazer um último esforço. Vou até a casa dele, mas uma mulher me diz que o abrigo fica aberto, que era só entrar e dormir.
    Volto para o abrigo e a porta realmente está aberta. O lugar não é dos melhores, mas para o momento é como se fosse um hotel cinco estrelas. Tomo um bom banho, lavo minhas roupas e vou descansar, pois meus pés estão ardendo de tanto andar. Não sei o por que desse cansaço todo, já havia andado mais de 30km em um dia sem maiores problemas. Será que é hora de parar por um dia?