quinta-feira, 16 de maio de 2019

38º dia pedalanças- 4ª etapa- Estrada real-Caminho Novo


Juiz de Fora-MG à Santos Dumont-MG
    Mais uma noite tranquila no ponto de ônibus no centro de Juiz de Fora. O dia amanheceu com algumas nuvens, mas sem chuva e com a sensação de que o sol irá aparecer. E com o sol, o meu bom humor também aparece. 
   É hora de voltar a pedalar, chega de ficar parado o dia inteiro na mesma cidade.  Depois de sete anos pego novamente uma planilha da estrada real. Já estava com saudade de ver os marcos me guiando pelas estradas de terra. 
    Havia colocado na cabeça de que iria fazer os quatro caminhos da estrada real. Mas em 2014 tive uma lesão no dedão esquerdo do pé. Infelizmente não tive um bom atendimento pelo SUS e a lesão acabou se tornando uma fratura completa da articulação. Fiquei um bom tempo mal, sem saber o que fazer. Parar de uma hora para outra de praticar esportes não é nada fácil para quem desde criança tinha uma vida bem agitada em relação a atividades esportivas. 
    A fratura acabou se calcificando, e encontrei alternativas como um tênis super macio para caminhar. Comecei a tomar cloreto de magnésio para as articulações e por fim descobri a bicicleta com um meio de transporte e de bem estar. Também emagreci 4 quilos para aliviar a carga. 
     Aos poucos fui recuperando a saúde e a alegria de viver. Não iria me perdoar nunca se não completasse os quatro caminhos da estrada real. Tarefa dada é tarefa mais do que cumprido pelo esquizo. 

feliz por reencontrar a estrada real 

    Aos poucos o sol foi dando as caras e o meu astral foi lá para cima. Na saída de Juiz de Fora encontro o primeiro marco do caminho. Irei fazer o caminho novo e o caminho dos diamantes. O caminho novo começa em Petrópolis, mas, como já relatei, estou começando por Juiz de Fora, pois os postos de gasolina na região de Juiz de Fora e no Rio de Janeiro geralmente não deixam ninguém dormir e muito menos montar barraca para passar a noite. 
     O caminho no início é muito bom, mas logo os buracos e as pedras tomam conta. O pneu da frente passa a emitir um som estranho, parecendo que está empenado. Já fico na dúvida se a bike irá aguentar fazer esse caminho  da estrada real, que é composto quase que 90% de estradas de terra, algumas boas, outras mais ou menos, e algumas péssimas. 
    
    Após algum esforço consigo sair desse trecho da estrada que não está muito bom e sigo para o distrito de Dias Tavares, onde dou uma parada e como um delicioso pastel de frango. Sempre procuro fazer umas cinco ou mais refeições por dia, entre almoço, café da manhã e lanches. Emagreci cinco quilos até este momento da viagem. Estava pesando 83kg antes de viajar... 
    Sigo o caminho e encontro uma vertente de água. Claro que tomo um banho e lavo algumas roupas. Não havia ninguém por perto. Volto a pedalar, e o caminho começa a ter muita lama e quase não encontro sinalização, tanto da planilha da estrada real como do município. 
    A lama toma conta da bike e a corrente começa a embolar nas catracas. E, para piorar, estou tendo que pedalar descalço por causa da lesão que tive no dedão do pé direito que ainda não cicatrizou. 
   Essas viagens me acalmam e me fazem um bem danado. Mas se tem uma coisa que me tira do sério são os caminhos mal sinalizados da estrada real. Ou é a planilha que está errada, ou é um marco que está faltando no caminho, ou então uma bifurcação que não tem nenhuma sinalização. 
não estava chovendo mas nos dias anteriores estava... 
    A sensação de achar que estamos andando sem rumo é uma das piores possíveis nesta viagem. Só vi bois e cavalos neste trecho. Ninguém para perguntar qual caminho seguir. E nenhum marco da estrada real também. Durante o caminho muitas vezes encontramos marcos bem próximos uns dos outros indicando apenas para seguir em frente. Mas, nas trilhas, onde deveriam ter maior sinalização, muitas vezes não encontramos nenhum marco. Deveriam fazer marco de um metros de altura para as trilhas.
    De nada adiantou o banho que tomei por volta do meio dia. Estou todo sujo de lama e suado. É a minha primeira experiência em viagem de bike por estradas de terra. Não imaginava que era tão cansativo pedalar por esse tipo de terreno. Não tem descanso: muitos buracos, lama, pedras... Nem na descida dá para relaxar, pois se dermos bobeira poderemos levar um tombaço. 
    A sensação que tenho é que andar 30km em uma estrada de terra não muito boa cansa mais do que andar 100km em uma BR asfaltada. É legal andar de bike nesse tipo de terreno, mas com uma bicicleta apropriada e sem muita carga. 
     Depois de quase uma hora andando naquela lamaceira comecei a achar que estava perdido. Nenhuma alma viva para perguntar onde estava. Olhava em volta e só via mato e uma ferrovia. Bem ao fundo dá para ver uma fumaça saindo, provavelmente de alguma usina. Mas cidade mesmo não via nenhuma. Tinha que chegar ao Distrito de Chapéu d'Uva, mas não via nenhuma placa também. 
     Desespero e raiva iam tomando conta de mim. Já não sabia se prosseguia em frente no lameado caminho de terra sem placas ou então retornava e seguia até Santos Dumont pela BR... Mas aquele caminho iria dar em algum lugar, em alguma cidade. Talvez não fosse o distrito de Chapéu D'Uva, mas seria um lugar onde poderia passar a noite. A minha barraca não aguenta muita chuva e geralmente a monto em locais cobertos quando o tempo está nublado. 
    De repente ouço ao fundo o barulho do motor de uma moto, o que me deixa mais animado e aliviado. O cara aparece pilotando uma CG 125 mas não passa direto. Só iria perguntar se estava no caminho certo para Chapéu D'Uva. Fiquei furioso e os palavrões que disse não podem ser publicados aqui no blog. 
    O jeito é seguir em frente. Agora ouço barulho de um carro. E não é que o maledito também passa direto? Proferi mais palavrões, que ecoaram pela floresta afora.. Xinguei até a quinta geração daquele motorista. Já começo a imaginar que estão armando um complô contra a minha pessoa para que eu fique perdido no meio do mato e não desista de terminar os quatro caminhos da estrada real. 
     Mas continuo a seguir o caminho até ouvir novamente o barulho de uma outra moto, mas dessa vez o cara para e me diz que estou no caminho certo para Chapéu D'Uva. Até para digitar o nome desse lugar é complicado!!!  Mas que alívio tomou conta de mim! Era como se tirasse um peso de 200kg de minhas costas. 
 
até que enfim o distrito de Chapéu D'Uva.... 

    Pedalo com maior velocidade, a fim de tentar encontrar algum restaurante para almoçar. Deveria ser por volta de uma hora da tarde. Mas, para minha infelicidade o distrito é bem pequenino e não tem restaurante. O jeito é pedalar mais uns 35km até a cidade de Ewbank Câmara... 
    Não perco tempo e continuo a pedalança, apesar do cansaço. Tenho que encontrar algum lugar para almoçar, O corpo sente muito no dia seguinte quando ficamos só no sanduíche e salgadinho. E também não quero emagrecer muito. 
    Mais estradas de terra, algumas subidas íngremes e finalmente chego em Ewbank Câmara. Tem alguns restaurantes, mas já são três horas da tarde e não consigo achar algum lugar para comer um arroz com feijão. O jeito foi comer pão com presunto e mussarela e yougurte.... 

    Saciada a  fome, sigo para Santos Dumont, distante cerca 12km de Ewbanck Câmara. Para descansar sigo pela BR, nada de estrada real de terra e lama por hoje. Andar pelo asfalto já virou algo fácil e simples para mim. Dá para descansar pedalando em muitos trechos. O incômodo maior é com o celim da bike e ficar muito tempo em uma mesma posição. 
   Segui pela BR por que a bike está muito suja e a corrente à todo instante embola nas catracas, talvez por causa da terra e da lama. Paro em um posto de gasolina e dou uma boa lavada na magrela. Tiro toda a terra e depois lubrifico a corrente. Na TV do restaurante do restaurante do posto está passando jogo amistoso da seleção brasileira, mas prefiro continuar a pedalar. 
    A limpeza na bike surtiu efeito, novamente ela está andando com fluidez e passando as marchas normalmente. E então segui pela BR mais aliviado até chegar em Santos Dumont. 
    Paro em um posto de gasolina e consigo um quiosque super bacana para montar a barraca. Espero que os outros dias sejam mais tranquilo e que tenham estradas de terra um pouco melhores do que as que encontrei hoje. Me lembro quando fiz o caminho velho a pé não havia encontrado caminhos tão complicados. 

quarta-feira, 15 de maio de 2019

36º e 37º dia pedalanças- 3ª etapa- Descansando em Juiz de Fora


Depressão total em Juiz de Fora

    Acordo no posto de gasolina por volta das sete horas da manhã. Uma forte neblina toma conta das redondezas. E, para piorar, muito frio e uma chuva fina. Ingredientes que me fazem ficar na barraca o maior tempo possível, já que havia montado a minha humilde residência em um lugar pouco movimentado do posto de gasolina. Mas não demorou muito e uma funcionário educadamente pediu para que eu me retirasse. 
    Como não pretendo começar o caminho da estrada real desde o início, em Petrópolis, desço até o Juiz de Fora. O centro é muito movimentado, com intenso trânsito de veículos, parecendo uma capital de um grande estado qualquer. Nas avenidas no lado direito tem uma faixa que tem um desenho de bicicleta, mas também os carros passam. É como se fosse uma faixa mista, mas com preferência para os ciclistas. Os ônibus passam no meio na ida e na volta. 
    Não gosto de visitar cidades grandes quando estou fazendo este tipo de viagem, me sinto um pouco deslocado. Nas pequenas cidades do interior e no litoral me sinto muito melhor do que no meio de um aglomerado de edifícios. 
    Procuro o abrigo da cidade, mas logo na entrada desisto, por causa dos usuários de drogas. Vai ser um pouco difícil encontrar lugar para tomar banho na cidade. Nos postos da BR cobram dez reais por um banho de dez minutos. E por falar em encarar o chuveiro, ontem não tomei banho. Então depois do almoço resolvo voltar para a BR e me lavar, mesmo que tenha que pagar dez reais. Mas no meio do caminho tive a sorte de encontrar dois mecânicos super gente boa que me deixaram tomar banho e lavar as minhas roupas. Acho que ficamos conversando por cerca de uma hora e meia. Falamos da viagem, sobre saúde, etc....
    Depois, nada para fazer, uma chuvinha caia e um pouquinho de frio. O jeito é esperar um dia ou dois até o sol aparecer e começar a fazer o caminho da estrada real. Não quero dar mais voltas malucas como a que eu fiz, só para passar o tempo. 
Depressão total. Parado, sem nada para fazer, tempo ruim e cidade grande com muitos carros.... 

37º dia- Mais deprê
    Ontem dormi  em um ponto de ônibus em uma avenida do centro da cidade. De dia ela é bem movimentada, mas, depois das oito da noite fica bem tranquila. Por volta da meia noite dois caras me chamaram e me ofereceram dois sanduíches e toddynho, que estava uma delícia naquela noite fria noite de verão em Juiz de Fora.
    Dormi no ponto de ônibus pois fico com dificuldade de pegar no sono se não tiver algo para acorrentar a minha bike. 
    De manhã ainda caia uma chuvinha. Tomei um bom café e depois fui para a lan house. E depois aquela indecisão para onde ir e onde ficar naquela movimentação intensa do centro de Juiz de Fora. Encontro uma igreja universal e resolvo entrar, apesar de estar de bermuda. Apenas uma senhora está orando. O pastor me cumprimenta e fica indo e vindo sem parar. Estava precisando de um refúgio desses. Não sou evangélico, mas estava uma delícia ficar ali dentro da igreja, ouvido o som bem ao fundo as buzinas e motores dos carros que passavam na movimentada rua. 
     Por volta do meio dia almoço e logo volto para a igreja universal, onde fico até por volta das três da tarde, quando começa o culto. Depois que surtei passei a não gostar muito de som alto. 
    Fico perambulando pela cidade até encontrar uma pracinha não muito movimentada. Juiz de Fora parece ter mais farmácias do que qualquer outra cidade. Não vou muito longe, pois vou dormir no mesmo local de ontem, já que não tive nenhum problema na madrugada. 
    A chuva fina não deu trégua. Choveu boa parte do dia. Já estava agoniado, não consigo ficar parado por dois dias no mesmo lugar nessas viagens. Tomara que amanhã o tempo mude. 

    

terça-feira, 14 de maio de 2019

35º dia pedalanças- 3ª etapa- Marataízes-ES à Juiz de Fora-MG


Lima Duarte-MG à Juiz de Fora-MG  Último dia da terceira etapa
    Acordo cansado e sem energia. A noite foi um pouco sem graça, não encontrei ninguém para conversar. A maioria das pessoas que avistei em Lima Duarte  pareciam desconfiadas quando me avistavam. Assim que havia acabado de montar a barraca, um dono de uma das lojas próximas entrou no estabelecimento como que conferindo alguma coisa e verificando se a porta estava bem trancada. Faz parte do caminho essas situações, sei que não estou acima do bem e do mal. 
    Ando bem pouco na parte da manhã, fico um bom tempo descansando em um ponto de ônibus que encontrei na BR. É daqueles dias em que penso que a bike está mais pesada do que o normal, ou então que ela está com algum defeito. 
    E fui pedalando sem pressa nenhuma para Juiz de Fora, cerca de 55km de distância de Lima Duarte. Por volta do meio dia dois cachorros na BR correm em minha direção. E cometi o erro de dar biscoitos para eles, pois pareciam bem famintos. 
    Mas, depois dos biscoitos sigo o caminho e os cachorros também... Não adiantou bater o pé, xingá-los e nem fingir que ia atirar pedra neles. Eu andava, eles também. Eu parava, e eles também. Voltei uns 500 metros até um pequeno povoado na tentativa de encontrar um lar para os dogs.
 Eles não queriam entrar e então bati palmas. O cara que atendeu disse que não poderia ficar com eles, pois já tinha cinco cachorros espalhados pelas casas. Insisti um pouquinho, mas não foi possível achar um local para os cachorros ficarem. Eles eram bem mansinhos e ficavam dando bobeira na estrada, acho que nunca haviam andado em uma BR. Não iria demorar muito e provavelmente seriam atropelados. 
    O jeito foi seguir em frente. Como os cachorros se apegam fácil às pessoas. Após cerca de um quilometro de distância encontro outro pequeno povoado. Os cachorros se socializaram rapidamente com o pessoal que estava em um bar e com as crianças na pracinha. Aos poucos fui me afastando deles até a saída. Às vezes eles olhavam para mim. Com muito cuidado fui me afastando cada vez mais até estar na beira da BR. Para a minha sorte havia uma boa descida. Antes de partir dei uma olhada de despedida e para confirmar se eles estavam familiarizados com o lugar. Como estava tudo certo subi na bike e pedalei com força até pegar um bom embalo para descer a serra.
 

  Mesmo pedalando lentamente e curtindo a paisagem, chego em Juiz de Fora por volta das quatro horas da tarde. Não gosto de passar por cidades grandes nesse tipo de viagem. Ainda estamos no período das chuvas, o que torna praticamente impossível viajar pela estrada real. O que fazer? Para onde ir? Bolar mais um trajeto maluco como este que fiz para apenas passar o tempo?
    Segui a BR 040 um pouco desanimado e com muitas dúvidas. O primeiro posto que parei para perguntar se podia montar a barraca acabou me negando. Parece que é da região mesmo, quando estive em Três Rios também não encontrei posto de gasolina que me deixasse passar à noite. Decido então começar o caminho da estrada em Juiz de Fora mesmo, ao invés de Petrópolis. Além da dificuldade de encontrar local para dormir, tudo era muito caro na região. Quero completar os quatro caminhos da estrada real, mas, desse jeito vou ter que deixar de passar por Petrópolis e outras cidades
    Entrei em um bairro afastado do centro de Juiz de Fora com a intenção de encontrar algum lugar coberto. Um morador disse que havia uma casa abandonada três quarteirões de onde eu estava. Mas  o lugar estava com o piso todo molhado.
    Volto para a Br, e, depois de pedalar mais uns 10km encontro um posto de gasolina bem grande. Desta vez não falo com nenhum funcionário e vou até um canto onde tem apenas os caminhões estacionados. Espero escurecer e monto a barraca. Está ventando muito e fazendo um pouquinho de frio. E ainda com cara de que ia chover....  O posto tem câmeras de segurança em todo canto, inclusive onde havia montado a minha barraca. Fico meio que esperando algum funcionário aparecer e me pedir para procurar outro lugar para dormir.
    Essa BR 040 não me traz boas lembranças. Me lembro que, no ano de 2001 fiquei quatro dias no meio do mato nesta estrada, só que na saída de Belo Horizonte. Estava tendo o meu primeiro surto psicótico grave, e estava achando que o mundo inteiro queria me matar. O jeito foi me refugiar no meio do mato. Fiquei cerca de quatro dias sem arredar o pé de lá, inclusive com muita chuva. Não sei como consegui suportar o frio daquelas madrugadas com chuva.
     Mas, voltando à viagem, depois de uma hora da barraca montada não apareceu nenhum funcionário do posto para pedir que eu fosse embora. Relaxei os músculos e senti que poderia dormir finalmente naquele dia.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

34º dia pedalanças-3ª etapa- Marataízes-ES à Juiz de Fora-MG


Bom Jardim de Minas- Lima Duarte

    Noite super tranquila na varanda do bar. Friozinho muito bom para dormir. Bom Jardim de Minas se situa no sul de Minas, região conhecida por suas baixas temperaturas. O carro que estava do lado de fora ficou todo molhado do sereno da madrugada.
    De madrugada um cara ficou falando um tempão no orelhão que fica bem em frente ao bar onde dormi. Nesse orelhão é possível ligar de graça para qualquer lugar do Brasil, uma pena que meu celular estragou e não decorei o número de nenhum dos meus contatos. 
    Acordei bem cedo, o dia ainda não havia amanhecido. Mas não me levantei. Pela primeira vez na viagem fico na barraca até por volta das oito horas. O dia anterior foi o mais difícil até hoje nessas minhas pedalanças de 2019. 
     O casal aparece na frente da casa ao lado e me oferece um cafezinho. E comprei batata frita, que era a única coisa que tinha no bar para comer. Eles iriam pegar a BR pois estavam construindo um restaurante na região. E precisa mesmo. Eu que o diga ontem. Pensei em me oferecer para ajudá-los, pois entendo um pouco de eletricidade. Mas sou um cara de pouca convivência social, então o jeito foi pegar a estrada e continuar minhas pedalanças.
Parti para Bom Jardim de Minas sonhando com uma padaria com os quitutes da culinária mineira: pão de queijo, biscoito de queijo, pastel de queijo, rocambole, doce de leite, etc.... O café da manhã teria que ser caprichado para compensar o perrengue do dia anterior. 
     Tive que andar cerca de 13km, em sua maior parte retas e descidas. A serra havia acabado ontem, quando estava exausto e sem forças para continuar. Não iria aguentar pedalar mais 13km, mesmo que não tivesse nenhuma subida.
    A única coisa que sei fazer é ovo cozido, depois de consultor o google o tempo em que o ovo tem que ficar cozinhando. Ah, e aprendi a fazer cafezinho também, para tirar a ressaca da parte da manhã e economizar o dinheiro que gastaria na padaria quando não estou viajando de bike.
    Mineiro gosta é de pãozinho de queijo, broa de fubá, etc.. E eu não sou diferente. A primeira coisa que procuro em Bom Jardim de Minas é uma padaria. Mas não encontro os quitutes da culinária mineira. Só pãozinho mesmo e alguns biscoitos, aqueles que dão muita sede na gente. Como estou com muita fome vou logo pedindo dois pãezinhos e um cafezinho. Depois compro biscoito recheado e um biscoito de água e sal, para guardar na mochila e não passar o mesmo perrengue que passei ontem. 
     Vou para a lanhouse da cidade, a fim de atualizar o meu blog e descansar as canelas também. Planejo ficar a parte da manhã na cidade e almoçar, só pedalando na parte da tarde. Para minha surpresa o PC é bom e a net é boa. 
    Estava "di boas" acessando a net e vendo as novidades da civilização quando a funcionária da lanhouse me chama. Uma velhinha que tem problemas de visão estava querendo rebocar a minha bike, pois eu a havia estacionado no passeio. Ela estava muito brava pois tinha esbarrado o braço na magrela. Achei estranho como uma idosa se arrisca a andar por aí enxergando tão pouco. Mas estava tranquilo e não queria confusão, disse que ela estava com toda a razão e pedi desculpas. 
   Voltei para a lanhouse e continuei de bobeira vendo alguns vídeos do face. Não deu nem dez minutos e outra aglomeração de pessoas na frente da lanhouse. Um senhor de idade pergunta quem é o dono da bicicleta e afirma que a bike não é uma bicicleta, e sim um cachorro. Era uma forma de me provocar, acho que ele não gostou da aparência da minha magrela e das mochilas. Mas eu estava de boa e muito tranquilo. Fiquei calado e voltei para o computador. 
     Essas pedalanças estão me fazendo muito bem. Estou mais calmo e tranquilo, não ligando muito para a opinião alheia. Às vezes preciso fazer uma viagem dessas, ficar sozinho boa parte do dia ajuda muito a refletir sobre uma pá de coisas. Essa viagem especificamente está me fazendo refletir sobre os meus hábitos nas redes sociais. Ficar um bom tempo longe do face está me deixando mais calmo e sereno. Aquela briga toda, aquela polarização que está tendo principalmente no mundo virtual estava me fazendo muito mal.
    Depois da lanhouse, um belo almoço com comida caseira no fogão à lenha em Bom Jardim de Minas. Era como se fosse uma forma de recompensa pelo perrengoso dia que tive ontem: frango, feijão tropeiro, macarronada, etc... E depois do almoço um talento de sobremesa... 
 

   Como estufei a barriga, resolvo dar um descanso na pracinha da cidade. Fico costurando a alça daquele negócio onde guardo a câmera. Uma mulher de uma loja em frente fica me observando, creio que ela deve ter pensando que eu estava preparando um baseado. Mas não preciso de drogas, acho que sou meio louco é de nascença mesmo... Louco para viver e ser feliz. Louco para ver um mundo melhor onde as pessoas não precisem de drogas para serem felizes e terem paz. 
    Por volta de uma hora volto a pedalar pela BR. Às vezes o meu rendimento na bike é melhor quando começo a viajar depois do almoço, uma pena que pedalar de noite pode ser um pouco perigoso. Essa parte do caminho é bem legal, com poucas subidas íngremes. 
    Encontro uma vertente de água na BR e não tenho dúvidas em parar para tomar banho e lavar minhas roupas, pois pressa é o que não estou tendo nessa etapa da viagem. O movimento de carros não é muito intenso, e deu para tomar um bom banho, claro que de bermuda... 
não podemos perder nenhuma oportunidade para tomar um bom banho neste tipo de viagem

    E vou seguindo o caminho tranquilamente e serenamente. O trânsito nesse trecho da BR é muito tranquilo e tem um bom acostamento, que são os dois principais quesitos para uma estrada ser boa para uma pedalança. Por volta das seis da tarde muitos trovões e raios. O céu se fecha de repente. Começo a pedalar com mais velocidade em uma tentativa de fugir das chuvas, mas acontece justamente o contrário. Acabo encontrando uma forte chuva, com pingos bem grossos. 
    Já havia me acostumado com as chuvas nesta viagem, mas não no período da noite. Mas não estava fazendo muito frio e rapidamente os pingos não estavam mais me incomodando. A preocupação maior era não molhar muito a bagagem. 
     A chuva não diminuía de intensidade, estava escuro e a visibilidade muito prejudicada. O jeito foi parar em frente de uma oficina mecânica que estava fechada. Estava tudo muito escuro.  De repente, vejo um vulto. O cara não fala nada. Claro que fiquei com medo. Ele acende a luz. Era o dono da oficina . Mostro minha bike para ele e digo que estou esperando a chuva passar. O cara diz que está tudo bem e fala que posso descansar no sofá de carro que tem na oficina. 
   Depois de uns vinte minutos, a chuva dá uma trégua e sigo o caminho até chegar em Lima Duarte e encontrar um posto de gasolina. A coxinha no restaurante do posto é cara, 5 reais. Não compro refrigerante e faço o tang de manga que havia comprado em Bom Jardim. 
     No posto não encontro lugar coberto para montar a barraca. Ando um pouquinho e acho algumas lojas que já estão fechadas e que tem uma boa cobertura. 

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ajuda para conserto do notebook

        Meu notebook pifou antes de ontem. Mesmo sem muita grana pedi para fazer o orçamento e consertá-lo. É o que ajuda a dar um pouco de sentido para a minha vida. Com o que escrevo lá no blog procuro ajudar as pessoas da maneira que posso. E também o notebook é a minha diversão, pois na minha humilde opinião na TV aberta é um pouco complicado de se achar algo que preste.
Não tenho vergonha de pedir O meu orçamento de aposentado é bem apertado, e qualquer imprevisto me deixa em uma situação complicada. Ganho um salário mínimo de aposentadoria. Ganhava um pouco mais quando trabalhava, mas, por causa dos descontos que eram cobrados, geralmente trabalhava sem carteira assinada, e, quando assinava, o valor era de um salário mínimo. Mas não é uma reclamação, em vista da situação em que o país está vivendo. Aliás, tenho mais que agradecer do que reclamar.
Sou uma pessoa honesta e se hoje estou aposentado, é por que trabalhei duro por vários anos. E tive o apoio de assistentes sociais que me ajudaram muito quando eu estava morando nas ruas por conta dos surtos psicóticos que tive. Assistente social procura saber a vida e conhecer quem está ajudando. Elas não ajudam com facilidade se souberem que a pessoa irá gastar o dinheiro da aposentadoria com drogas, por exemplo.
É muito bom ter a consciência tranquila. Claro que, como ser humano errei na minha vida e acho que vou errar ainda, mas não uso a minha condição de ser humano como pretexto para futuros erros.
Não estou pedindo o valor integral do conserto do notebook, qualquer valor ajuda nas despesas que tenho, como alimentação, aluguel, etc.
Qualquer dúvida é só entrar em contato pelo email abaixo ou então fazer o depósito na conta

memoriasdeumesquizofrenico555@gmail.com


 Julio Cesar dos Santos de Oliveira
    Agência 2332 Ipatinga MG
    Caixa Econômica Federal
    Operação 023
    Conta 00016678-2

terça-feira, 7 de maio de 2019

33º dia pedalanças-3ª etapa- Marataízes-ES à Juiz de Fora-MG


Barra Mansa-Quatis-Falcão-Bom Jardim de Minas
     Ontem não dormi em um posto de gasolina. Dormi na entrada de um grande galpão na Via Dutra. E com um pouco de medo de ficar em uma BR tão movimentada, ainda mais no Rio de Janeiro. Choveu muito de madrugada, daquelas chuvas de provocar enchentes nas cidades. 
    As pessoas no caminho sempre me dizem que sou um cara corajoso por fazer uma viagem assim, mas essa noite foi a que realmente tive medo. 
    Ontem, por volta da meia noite, de dentro da barraca ouvi um barulho. Cuidadosamente e silenciosamente abri um pouco o zíper da entrada, o suficiente para ver que tinha um cara sentado em um banco bem perto da minha humilde residência itinerante. 
    Mil perguntas surgiram na minha cabeça. O que ele queria? Me assaltar? Esperar eu pegar no sono para fazer alguma maldade? 
    O cara tinha mais ou menos a minha altura (1.78m). Aparentava ter uns 25 anos de idade. E não era magro e nem era gordo. Esperei mais uma meia hora para novamente dar uma espiada: ele permanecia imóvel, olhando para a BR. Ainda bem que havia acorrentado a bike no banco. Sempre procuro colocar a magrela atrás da barraca, com o pneu encostado para que eu possa dar uma conferida se por acaso acordar de madrugada. 
    Como o cara não arredava o pé, peguei a mochila e tirei as ferramentas que uso para consertar a bike. Fiquei batendo as chaves umas nas outras, para o cara pensar que estou armado com alguma faca ou algo parecido. Não adiantou, ele continuava na mesma posição e no mesmo lugar. Só resolveu se mexer quando a chuva virou uma tempestade e começou a molhá-lo. Então ele ficou praticamente do lado da minha barraca. Fiquei com um pouco de medo, é claro. Peguei o meu desodorante de spray e fiquei em posição de alerta. Se o cara fizesse algo iria descarregar o desodorante todo nos olhos dele. 
    Mas ele continuou imóvel, e acendeu um baseado. É, acho que ele só queria fazer a cabeça mesmo. Acabei me acostumando com a presença dele e acabei dormindo. 
    
Dia de opostos
a movimentada via Dutra

     Logo de manhã, um dos maiores perrengues que pode acontecer no caminho: começar a pedalar antes de tomar um bom café da manhã, para aumentar os meus níveis de dopamina, serotonina e outras "inas" mais. 
    Para piorar, estava na movimentada Via Dutra, que liga Rio de Janeiro e São Paulo. Para piorar ainda mais, o tempo estava bem nublado, com boas chances de chuva já na parte da manhã...
     E comecei a pedalar. A sensação que tive naquele momento era de que estava viajando na representação do inferno na terra. Muito barulho na BR, por causa das carretas. E pior do que o barulho era o vácuo que elas faziam, dificultando ainda mais a subida. Estava pedalando em sentido contrário aos veículos, pois a BR tem uma cerca bem no meio, e nem gente consegue atravessar... 
Quando passava três carretas bem próximas, a bike chegava a parar e tinha que fazer um esforço ainda maior para continuar subindo. 
    A tortura continuou por cerca de 6km, até encontrar uma lanchonete. Não havia cerca no meio da Br, e sim uma pequena mureta de concreto. Com alguma dificuldade consegui levantar a bike  e colocá-la no outro sentida da rodovia.
Tudo era caro na lanchonete, mas era tudo uma delícia. As tortas, os bolos, o pãozinho com manteiga Como estava muito mal humorado, resolvi gastar um pouquinho a mais naquela manhã, como uma forma de compensar os perrengues por este trecho da viagem que havia planejado. Para quem está começando a ler as postagens nesse capítulo, esse trecho do caminho estou fazendo com a intenção apenas de passar o tempo. Estou planejando voltar para Belo Horizonte pelo caminho da estrada real, que é composto quase que totalmente de estradas de terra, e então tenho que esperar o período das chuvas passar. 
   

      Comi um delicioso bolo de chocolate com cenoura, uma torta de chocolate, o que aumentou os meus níveis de serotonina e me deixou um pouquinho bem humorado. Sigo o caminho pela BR por mais uns 2km até encontrar uma saída e seguir por várias cidadezinhas em direção à Aiuruoca. 
     A estrada que peguei depois da Dutra não tem acostamento, mas o movimento de veículos é bem fraco. E a paisagem é bonita. Na verdade para mim qualquer br ou estrada com mato e árvores é bonita. Vou seguindo o caminho com bom astral até ouvir um barulho de água. Entro no meio do mato e vou avançando até chegar em uma bela cachoeira. Vou em direção as águas tomando o cuidado para não pisar nas  macumbas que o pessoal costuma deixar na cachoeiras. Nessa região noto que o povo é chegado em um trabalhinho de macumba. . . 
     Entro na água de uma vez e levo um tombaço. As moedinhas de 50 centavos que estavam no meu bolso rolaram cachoeira abaixo, que deveria ter uns cinco metros de altura. Por pouco não caía também. E poderia ter me machucado bastante. Acho que sou um cara de sorte nesse aspecto de acidentes, pois sempre passo perto dessas situações, mas nada de grave até hoje me aconteceu. Confesso que às vezes sou muito distraído. Aí é que entra o meu fiel e amigo anjo da guarda. Depois de tomar um bom e refrescante banho de cachoeira, fico um bom tempo deitado e escutando o relaxante som das águas caindo. Tenho que seguir sem pressa este caminho, não posso chegar em Petrópolis antes das chuvas passarem.   
    Por volta das dez horas paro em uma pequenina cidade para descansar. Não estou com muita fome para  esperar o horário de almoçar, mas não resisto à um caldo de cana e um pastel de queijo. O caldo de cana estava uma delícia. Aliás, todo caldo de cana puro é muito saboroso. A gente sente quando o caldo de cana é puro e que não foi acrescentado água quando tomamos o último gole. Sentimos aquele gosto docinho na garganta. Não é aquela sensação de estar bebendo água com açúcar...  E o pastel de queijo também não ficava atrás. Feito na hora. 
    
     Depois do descanso, continuo a pedalança. Não planejo muito o caminho nesses dias, não tenho uma meta definida. O caminho é muito bonito, com muitas cachoeiras e com o visual incrível aos pés da serra da Mantiqueira. Muita subida íngreme também. Com o passar do tempo as casas foram sumindo e não avistei mais ninguém. 
    Por volta do meio dia avisto uma pequena cachoeira debaixo da ponte. Aproveito para tomar banho e lavar minhas roupas. Planejo almoçar por volta de uma e meia da tarde, quando devo estar no início da Br 267, que passa pela cidade de Bom Jardim de Minas, onde pretendo dormir. 
    

    Depois do banho sigo o caminho em direção à BR 267. O tempo vai passando e nada de encontrar alguma alma viva. Nada de carro também. O visual é muito bonito, estava me sentindo o protagonista do filme "Na natureza selvagem".... Mas o roncar do meu estômago só me fazia querer voltar à civilização e comer um bom X-tudo com muito queijo e carne. Encontro muitas cachoeiras por esse caminho, mas só penso em chegar na BR e encontrar um restaurante para matar a minha fome.
    Os buracos vão aumentando à medida que vou seguindo.  Já não estava com o bom humor de antes. E não encontrava ninguém para perguntar se estava na direção certa. Mas, depois de duas horas de pedal finalmente encontro a BR 267!!! Nunca havia ficado tão feliz ao ver asfalto... Me sinto mais aliviado e animado. Mas a alegria só durou cerca de alguns minutos, pois na BR também não haviam  casas e nem pessoas...

    "Deveria ter almoçado na cidade onde havia tomado caldo de cana"... - pensei... Se arrependimento matasse.... 
    Ando mais uns 6km e vejo na BR algumas pessoas mexendo em alguns troncos de árvore cortadas.
Pergunto por restaurantes e lanchonetes  e eles me dizem que na cidade de Bom Jardim tem vários. Sigo mais animado, deveria ser umas três horas da tarde..
    Depois de quase uma hora subindo aquela estrada solitária e com muitas serras, o desespero começa  a tomar conta de mim. Só havia comprado um biscoito recheado na cidade onde havia comido o pastel de queijo. Encontro uma casa que está vazia. Outras casas parecem abandonadas. Um ou outro carro passa naquele trecho da BR. Quando encontro uma casa habitada, é uma casinha bem simples, e o dono não tem nada de comer para me oferecer. 
    Fraqueza, desânimo, cansaço e um pouco de raiva... 
    Pergunto quantos quilômetros está a cidade de Bom Jardim, e, para desespero meu o senhor me informa que ainda tenho que andar mais 35km! E, para piorar ainda mais a situação, os últimos 15km são de pura serra braba...
    Que maluquice de dia. A raiva que sentia era de mim mesmo, pois fui eu que bolei esse caminho para passar o período das chuvas e assim poder fazer o caminho da estrada real.

     Eram umas quatro e meia da tarde. Não havia almoçado. Estava muito cansado. Era uma prova de resistência e tanto. Não tinha certeza se conseguiria chegar em Bom Jardim nesse dia.
    O jeito foi ir subindo as serras na esperança de pelo menos encontrar alguma casa e comer alguma coisa. Por volta das cinco e meia encontro uma fazenda. E começo a bater palmas e a gritar:
- Ô de casaaaaaaaaaaa!!!!
    Do alto da montanha um cara começou a conversar comigo. Ele estava distante pra caramba, mas nas montanhas o som ecoa com mais facilidade...
   Ele foi descendo lentamente e lhe falei sobre a minha situação. Me convidou para entrar e ele e sua esposa me ofereçam café e um queijo delicioso. Claro que comi vários pedaços e tomei um copo de café bem cheio. E também comi muita banana. 
     Conversamos muito, principalmente sobre o caminho. E lá descubro que na verdade queria era ir para Ibitipoca e não Airuoca... Tinha cismado que era em Airuoca que tinha uma grande área cheia de cachoeiras e lugares bacanas para se visitar. Mas além do nome parecido as cidades são próximas e então não preciso alterar muito o planejamento e nem a roteiro. 

Prova de resistência física... 
    Me despeço do casal e sigo o caminho. Já é quase noite. Subo a serra empurrando a bike, já dando sinais de fraqueza. Aquele martírio todo aumentava ainda mais o meu complexo messiânico.
  A dúvida se iria ou não chegar em Bom Jardim aumentava ainda mais. A Br era muito escura, não tinha casas. Encontro vários funcionários de uma empresa na BR, pois o caminhão estava com problemas. Resolvi pedir carona para quando o caminhão estiver consertado, mas eles falaram que o mecânico iria demorar muito para chegar ao local.
     Cheguei a pensar a montar a barraca ali naquela escuridão, mas estava com muita fome ainda. E provavelmente não iria aguentar pedalar no dia seguinte sem tomar um café da manhã  Era uma corrida contra o tempo. E se chegasse em Bom Jardim muito tarde talvez não poderia encontrar alguma lanchonete ou bar aberto. O jeito foi seguir a serra. Poderia chegar à meia noite ou até depois, mas teria que chegar. 
    Além da fome, não poderia montar a barraca na beira da BR, pois o tempo estava um pouco nublado e se chovesse simplesmente estaria perdido, pois estava já no sul de Minas, que, apesar do verão, faz um friozinho de madrugada. 
    Segui o caminho, sentindo que poderia a qualquer momento desabar no chão de cansaço... Alguns carros passavam por mim naquela escuridão toda. Ainda tinha que tomar cuidado para não ser atropelado naquela BR sem acostamento. Os caras do caminhão estragado passaram por mim e não me deram carona. Não quis insistir. Mas que deu  vontade de xingar os caras isso deu... 
    Deveriam faltar uns 15km para chegar em Bom Jardim e nada de reta ou descida. Nunca havia andado tantos quilômetros seguidos de serra. Ainda mais sem me alimentar. À essa altura o cansaço era muito maior do que a fome e comecei a pensar em dormir na BR caso encontrasse um espaço adequado. Já havia passado do meu limite físico. Estava me arrastando por aquela escura estrada.
    Mas, para meu alívio, avisto algumas luzes na estrada. Parecia ser um pequeno vilarejo. Junto minhas últimas energias e acelero o passo. Para sorte minha era um conjunto de casas. Comecei a bater palmas na entrada da localidade, mas ninguém atendia. Era um lugar bem escuro e peguei a minha lanterna para procurar alguma casa habitada. Encontro um barzinho, que apenas tem batata frita para vender. Um casal me atende e explico a história toda do tenebroso dia que estava tendo e eles generosamente me oferecem um prato de comida e permitem que eu durma na varanda da casa. 

domingo, 5 de maio de 2019

32º dia pedalanças-3ª etapa- Marataízes-ES à Juiz de Fora-MG


Vassouras-Barra do Piraí-Volta Redonda-Barra Mansa
      Noite ótima no posto de gasolina em Vassouras. Choveu um pouquinho e dormi muito bem. O clima em Vassouras é muito agradável, mas deve fazer um frio bem intenso no inverno. 
    Apesar de ter dormido bem, acordei um pouco indisposto, mesmo após um reforçado café da manhã. O café da manhã quando digo reforçado é quando tomo muito café mesmo e chocolate, alimentos estimulantes do sistema nervoso central. 
    Se ontem o dia foi ótimo e a bike parecia super leve, hoje de manhã está parecendo bem mais pesada de costume ou então que está com defeito. 
    Estava pensando em ir em alguma UPA no município de Vassouras, para tratar o ferimento do dedão do pé direito, mas encontro na BR uma ambulância do SAU(Serviço de Atendimento ao Usuário). Os enfermeiros apenas limparam o machucado, e disseram que não era preciso dar ponto.  Achei estranho, pois o ferimento estava bem aberto.
     O caminho tem algumas serras bem complicadas, e está um pouco difícil de pedalar e até mesmo andar. Tenho a impressão que o ferimento irá demorar um bocado de tempo para cicatrizar. O dedão do meu pé esquerdo já é quebrado, e agora o dedão do pé direito está com problemas. Tenho que andar de uma maneira bem estranha, para não forçar o dedão do pé esquerdo e nem atrapalhar ainda mais o ferimento do dedão do pé direito. 

     Não sei o que me aconteceu hoje, mas estou achando tudo sem graça no caminho. Às vezes me pergunto como uma pessoa pode mudar assim tanto de ânimo de uma hora para outra. Estou com saudades de uma cama e de um quarto com som e uma tv ligada em um notebook, é claro, pois o sinal da TV aberta só passa tragédias, péssimas novelas e outras porcarias mais. 
    A grana está ficando curta e estou tentando economizar. Viajar de bike também é um pouco dispendioso. Tenho que comprar protetor solar, pois não é nada fácil ficar o dia inteiro debaixo do sol. Fiquei bem queimado nos dias em que não usei o filtro solar. Tenho que fazer a manutenção na bike e além de tudo a alimentação é cara nos restaurantes e lanchonetes na BR. E tenho que me alimentar bem para não emagrecer muito. Já perdi 5kg desde que comecei a pedalar. Pesava 83kg e no momento estou pesando 78kg. Mas estou me sentindo bem fisicamente. Saco vazio não para em pé, mas também saco muito cheio não sai do lugar. 

Volta Redonda

    Passo por Barra do Piraí e chego em Volta Redonda. Não tive boa primeira impressão da cidade, por causa da poluição que saia da usina. Tenho que dar um monte de voltas na cidade até encontrar a saída para a Via Dutra. Deve ser por isso que a cidade se chama Volta Redonda. 
    Não gosto de pedalar na Via Dutra. Movimento intenso de caminhões e carretas. Muito barulho. Dá um desânimo e uma saudade do início da viagem, que era tipicamente rural. Pedalo rapidamente até Barra Mansa, antes que a noite noite chegue. Tenho um pouco de receio de andar nessa estrada. Talvez seja cisma minha. 
   Em Barra Mansa encontro um posto de gasolina e tomo um banho. Mas neste posto não tem local coberto para montar a barraca. O tempo está nublado e parece que vai chover mais de noite. Ando um pouco mais e encontro um local coberto na entrada de um galpão enorme. É um pouco isolado, não tem ninguém por perto. O meu medo aumenta um pouco mais.